13/02/13

Entrevista imaginária com José Tolentino Mendonça.


Não sendo religioso (sou agnóstico), julgo que um dos focos de tensão social mais importantes em muitas partes do mundo actual (podendo, de futuro, vir a ser esse o caso em países como Portugal) gira em torno da religião. (Quer dizer: pode não ser exactamente a religião, mas antes as dinâmicas sociais e culturais que através dela se expressam.) Há quem tenha opções grupais muito definitivas nessa matéria: alguns fiéis desta ou aquela confissão religiosa vêem o resto do mundo (outras religiões e não crentes) como o inimigo; alguns ateus (ou, de alguma outra forma, não crentes) acreditam que a religião é o sumário de todo o obscurantismo. Discordo profundamente de qualquer uma dessas posições: a religião é às vezes causa de sofrimento e atraso, sendo noutros espaços e tempos factor de progresso e libertação.
Vem isto a propósito de um texto e de um homem: José Tolentino Mendonça, autor da peça O Estado do Bosque, em cena no Teatro da Cornucópia. Já aqui escrevi sobre o espectáculo de teatro daí resultante – o qual, aliás, aconselho vivamente. Esse texto interroga de forma muito relevante a nossa pertença ao mundo, tenhamos ou não algum interesse na questão religiosa – mas não se pode ignorar que José Tolentino Mendonça, neste magnífico texto poético para teatro, nunca deixa de ser um cristão e homem de igreja, sacerdote católico, ao mesmo tempo que exerce n’O Estado do Bosque a sua condição de intelectual, escritor e poeta, com uma forma própria de estar no mundo e pensar. Tudo isto nos levou a imaginar uma entrevista com o autor.
Nesta forma de “entrevista imaginada”, o que vos posso oferecer só tem perguntas, claro.

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Pergunta: Como leitor e espectador, lendo o seu texto e vendo a peça num ciclo intitulado “O Nome de Deus”, ao lado de um texto de Pasolini, ateu e comunista, vejo que “O Estado do Bosque” é integrado por Luís Miguel Cintra no renascimento da inquietação religiosa que ele vive, mas sempre como uma procura mais geral pelo sentido da vida, uma procura que, no dizer dele, não separa, antes junta, crentes e não crentes. No espectáculo, o poço está lá para assinalar essa ideia, a partir do Evangelho e do episódio da Samaritana, de que a verdade pode vir daquilo que, sendo impuro para os critérios oficiais, é autêntico. O que lhe pergunto é: qualquer um pode ir à procura? A personagem Peter era vendedor, gerente num stand de carros de luxo, e partiu em busca do bosque. E vai discutir mitologia grega com o guia. O que lhe pergunto é: os “guias” que temos aceitam partilhar a procura com qualquer um? Há muita gente convencida de que os que procuram o sentido da vida pela via da religião, especificamente pela via do catolicismo, nem sempre têm essa abertura. Nesse caso, o sacerdote e responsável católico que o José Tolentino Mendonça é, vê nisso um desafio de abertura?
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Pergunto-lhe: na peça há uma ONG, uma associação ambientalista, que toma conta do guia cego, ou, para usar a expressão do texto, “lhe dá algum apoio” desde que ele se estabeleceu como eremita à entrada do bosque. Sem aprofundar, o texto parece irónico nesta referência, como se dissesse “há sempre uns burocratas que querem tomar conta dos guias”. Para um sacerdote católico, de certo modo alguém que pode rever-se num guia à beira do bosque, que se expressa com grande liberdade sem deixar de pertencer e ter responsabilidades num colectivo que é uma igreja, há aqui ecos de uma reflexão acerca das muitas forma possíveis de combinar a liberdade e a pertença – não apenas na igreja, mas em muitas outras situações onde essa combinação não é linear?
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Pergunta: Na cena III, “o diálogo do poço”, irrompe um tema que se desvanece rapidamente, sem deixar rasto (ou, pelo menos, eu perdi-lhe o rasto) no resto do texto. É o tema da espera. A espera como preparação. Quem o diz é o guia (“PETER – Que preparação é essa? O que é que nos falta? JOHN WOLF – A espera.”) Em temas filosóficos, tendo a ler nesta espera o tema da passividade: nós não somos só actividade, não somos apenas agentes a impender sobre os outros, temos também de ser a passividade que absorve a influência dos outros, do mundo que nos entra pela pele dentro, do mundo que não depende da nossa constituição; precisamos que a actividade, ou o activismo, não capture a abertura, a receptividade. O que lhe pergunto é: que falta nos faz essa espera hoje e como podemos praticar a espera em tempos de urgência? Por outro lado, mais a pensar na sua condição de sacerdote, a espera pode ser contemplação? Ser-nos-á permitido, legítimo, hoje, no meio da precariedade generalizada, voltar a juntar a contemplação com a acção? E como?

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Luís Miguel Cintra fala sobre "O Estado do Bosque", de José Tolentino Mendonça:




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