01/12/12

1 de Dezembro.


Hoje é dia de sermos muito patrióticos, muito portugueses, muito espanhóis-nem-por-nada - ainda por cima, para muitos isso mistura-se lindamente com a raiva ao governo que acaba com o feriado desta festa tão portuguesa.

Talvez valesse a pena lembrar que nos séculos onde os filipes de espanha foram nossos senhores, poucos por cá estavam tão incomodados com isso como nós agora fazemos por estar. Nem havia esta noção de Estado independente como há hoje, nem se faziam as contas tão miúdas como se fazem hoje. A nossa élite tinha feito trinta por uma linha para que os trapinhos dos casamentos e dos nascimentos nos juntassem ao pleno ibérico e a marosca só falhou porque os príncipes e as princesas morriam como tordos e deitaram a perder todos cruzamentos preparados para juntar as coroas. Se isso tivesse sido feito a tempo e horas, talvez juntos tivessemos conseguido ter recursos para gerir o "império" com mais proficiência, coisa que a nossa minusculez assim não permitiu, passando em velocidade estonteante que mal o vimos o proveito dessa linda glória de termos dado novos mundos ao mundo.

Não quero ser atirado pela janela, que não sou conde nem sirvo a representante da coroa de madrid, mas não é preciso reescrever a história em tons heróicos para termos orgulho nas coisas interessantes que fizémos por vezes. Ainda assim, é primeiro de Dezembro e, sendo sábado, nem se nota que isto vai passar a ser um dia entre trinta de Novembro e dois de Dezembro, simplesmente.

2 comentários:

António Pedro Pereira disse...

Caro Porfírio:

Mas a apropriação das datas simbólicas sempre foi uma marca dos períodos em que os regimes necessitaram de se legitimar ou de se afirmar.

O 1.º de Dezembro, que nasceu na segunda metade do século XIX pela mão da então Comissão Nacional 1.º de Dezembro (mais tarde Sociedade Histórica da Independência Nacional, criada em 1861) como reacção a um afloramento do movimento iberista, passou a ser comemorado pela República porque esse regime carecia de legitimidade num oceano monárquico. Foi o único feriado de origem monárquica que resistiu.

Foi o uso continuado que lhe conferiu uma dimensão simbólica de âmbito nacional.

E nunca foi alimentado, direi que foi mesmo muito mal tratado pelo nacionalista Estado Novo, o que é um paradoxo.

Este acabaria por criar o 10 de Junho, completamente artificial, em vez de alimentar o 1.º de Dezembro.

E depois do 25 de Abril, expurgado das missas chatas a que o Estado Novo obrigava os lusitos da Mocidade Portuguesa a assistir nesse dia, ficou um pária.

Até que uma comissão liquidatária neo-liberal a que se atrevem a chamar governo se lembrou de o abolir.

Porfirio Silva disse...

Eu concordo que há momentos em que se perde muito em querer "limpar" as tradições para debaixo do tapete. Mas queria evitar que as pessoas pensassem que a nossa representação actual da questão era a mesma que as pessoas tinham ao tempo.
De qualquer modo, obrigado por nos informar mais do que o meu post.