19/11/12

que o poeta seja um fingidor.


Que o poeta seja um fingidor, aceita-se.
Que a política oficial continue a ser largamente um fingimento, é inaceitável.
O governo finge que vai correr tudo bem. Minto: o governo finge que acredita que vai correr tudo bem.
A oposição responsável (se não quisermos ser simpáticos: a oposição deste rotativismo) finge que está nas nossas mãos fazer diferente apenas pelas nossas forças. Não digo que "a oposição de sua majestade" minta, porque não sei até que ponto vai a sua ingenuidade: quanto maior for a ingenuidade, menos será a sua culpa e menor será, ao mesmo tempo, a sua valia para um país aflito. Mas seria bom ir pondo os olhos em Hollande, cujas ideias não vão a lado nenhum só com vontade e declarações.
A oposição valentona (se não quisermos ser simpáticos: a oposição que quer deitar fora o bebé com a água do banho) finge que as nossas dores seriam menores se virássemos as costas aos nossos credores e vivêssemos desde já com o que produzimos. A retórica do "não pagamos" é pegar ou largar: há poucas pessoas que saibam o que isso nos custaria que ainda se atrevam verdadeiramente a defender tal opção.

O que é assustador no fingimento reinante não é a variedade das vozes. Poderia dizer-se: não saímos daqui porque "cada cabeça cada sentença". Julgo que, na verdade, não é isso o que se passa, mas antes algo bastante mais bizarro. O que assusta os políticos de circunstância é que o momento pede convergência e não brados heróicos contra todos os outros à sua volta, que é aquilo que esta guerra civil não declarada tem desgraçadamente pedido. Vejamos.

Quase toda a gente está de acordo que a actual estratégia de "ajustamento" não vai resultar e, além disso, que a única saída é conseguir uma condicionalidade diferente para os empréstimos da Troika. Desde Miguel Cadilhe a Arménio Carlos, passando por altas figuras dos partidos do governo, toda a gente já percebeu que assim vamos rebentar na praça pública. Claro que o "não pagamos" da esquerda da esquerda não é a mesma coisa que a "negociação honrada" de Cadilhe, ou o "mais tempo e menos juros" do PS. Isto é: todos estão a ver o problema mais ou menos da mesma maneira, embora não pareça. Não parece, porque o discurso anti-Euro tem um aspecto diferente do discurso pró-Euro, mas, em termos práticos, se se conseguir uma modificação substancial das condições, toda a gente vai respirar melhor e os termos do debate evoluem. Mesmo o PCP e o BE não se importam que venha o dinheiro...
Isto dá a ideia de que haveria condições para algum consenso nacional em torno de objectivos mínimos para tentarmos escapar do buraco. Só mesmo Passos e Gaspar remam contra esse consenso. O país ganharia imenso, em termos de margem de manobra internacional, se aparecesse unido contra esta austeridade sem futuro, exigindo outro programa para outro ajustamento - embora comprometendo-se a uma conduta responsável como parceiro na comunidade internacional. Já imaginaram a força que teria lá fora aparecerem os patrões e os sindicatos, a direita e os comunistas, unidos nesta frente?
A dificuldade é que para isso teriam de unir-se agora naquilo em que convergem, deixando para depois as divergências. E isso está contra a moda da guerra de todos contra todos na nossa política doméstica.

Assim sendo, todos fingem que as suas representações habituais continuam a valer alguma coisa. Alguns esperam que o brinde de uma nova orientação europeia (depois das eleições alemãs) chegue antes do dilúvio (e antes de o seu governo cair). Outros esperam chegar ao poder em bom tempo, para não arderem no mesmo fogo que já deflagrou. Outros (na esquerda da esquerda) esperam que tudo corra suficientemente mal (ao PS e à Europa) para mudarem o mapa político português e atirarem os socialistas para o lixo. E todos vão fazendo de conta que isto é forma de lidar com um país.

A convergência, se não o consenso, arde muito nas mãos dos políticos tradicionais portugueses: não sabem o que lhe hão-de fazer. Neste momento, em vez de valorizarem o facto de quase todos verem o perigo vir do mesmo lado, em vez de investirem num consenso político tão alargado como quase nunca é possível, continuamos a esmiuçar os sufrágios. E o tempo a passar. Contra nós.

(No meio disto tudo, esqueci-me de falar de Cavaco Silva. Na verdade, é um esquecimento que não faz muita diferença: o Presidente já não é deste mundo. A menos que tenha regressado ao Pulo do Lobo e à manha de se esconder para regressar vestido de cordeiro.)

2 comentários:

António Pedro Pereira disse...

Caro Porfírio:
Nunca vi uma leitura da nossa triste realidade política tão certeira, lúcida, isenta e abrangente (ao mesmo tempo tão crua e desanimadora, não por si mesma, mas pela desanimadora realidade que magistralmente retrata).
Eu vou passar o seu texto onde puder (aos amigos e nos blogues), mas é pouco. Ele merecia uma divulgação em todos os «media» se não andassem entretidos a fingir que falam do país mas falando apenas do fingimento e dos fingidores.
Certamente conhecerá o texto de João Ferreira do Amaral, saído no último número recente da revista XXI da Fundação Francisco Manuel dos Santos, intitulado «Moeda única: o custo de uma utopia» Aqui deixo o link para quem o quiser ler: http://mobile.economico.pt/noticias/moeda-unica-o-custo-de-uma-utopia_155685.html
Embora com perspectivas diferentes e debruçando-se sobre temáticas igualmente diferentes, acho-os muito parecidos na seriedade, argúcia e na profundidade da análise.
Parabéns.
Por textos destes é que dá gosto vir ao seu blogue diariamente.
E muito obrigado.
Espero que não se canse, desistindo de pregar neste deserto povoado de uma vozearia sem sentido.

Porfirio Silva disse...

Caro António Pedro,
Gosto de saber que viu alguma coisa de relevante naquilo que escrevi - embora eu não tenda a dar assim tanto relevo às minhas próprias palavras.
Cumprimentos.