11/10/12

cartistas.




Num apontamento aqui no blogue escrevi já hoje, a propósito de quatro carros alugados pelo Grupo Parlamentar do PS, e de todo o burburinho gerado, o seguinte: «Só pode ser deputado quem possa ter o seu próprio carro para fazer as deslocações que sejam necessárias em funções? Se é isso, até podem tirar a remuneração aos deputados: irá para deputado quem for suficientemente rico para não precisar de nada. As "mordomias" dos deputados foram inventadas na Inglaterra, por reivindicação dos "de baixo", para não serem só os ricos a poderem dar-se ao luxo de ser eleitos para o parlamento.»

Explico-me agora mais detalhadamente.

O Dicionário Político do Marxist Internet Archive descreve assim o "Cartismo" inglês:
Partidários do primeiro movimento revolucionário de massas na história da classe operária de Inglaterra nos anos 30-40 do século XIX. Os participantes no movimento publicaram a Carta do Povo e lutavam pelas reivindicações nela apresentadas: sufrágio universal, revogação da exigência de ser proprietário de terras para ser eleito deputado ao Parlamento, etc. Por todo o país, durante vários anos, realizaram comícios e manifestações, nos quais participaram milhões de operários e artesãos. O Parlamento inglês recusou-se a ratificar a Carta do Povo e rejeitou todas as petições dos cartistas. O governo reprimiu cruelmente os cartistas e prendeu os seus dirigentes. O movimento foi esmagado, mas a influência do cartismo sobre o desenvolvimento do movimento operário internacional foi muito grande.
Segundo a definição de Lénine, o cartismo foi “o primeiro movimento revolucionário proletário amplo, verdadeiramente de massas, politicamente estruturado”.

Terão notado a lista das reivindicações apresentadas: sufrágio universal, revogação da exigência de ser proprietário de terras para ser eleito deputado ao Parlamento, etc.

Ora, é muito interessante aquele "etc." ali no fim. Vejamos, com a ajuda de umas fotografias que tirei o ano passado numa exposição em Newport, uma cidade que teve um papel fulcral no cartismo de que estamos a falar.


Vejam lá: esse movimento revolucionário da classe operária reivindicava um salário para os deputados, uma das suas grandes reivindicações. Como se lê na imagem acima, essa reivindicação só veio a ser satisfeita já no século XX, tendo os deputados passado a receber 400 libras, enquanto na altura um mineiro recebia 83, um professor 176 e um procurador 1343 (por ano).

Quer dizer: para que os representantes do povo possam ser do povo, é o povo que tem de lhes pagar. O cartismo revolucionário das ilhas britânicas percebia isso antes dos meados do século XIX. Mas os gritantes do século XXI não percebem.


5 comentários:

Francisco Clamote disse...

Excelente lição.

Jaime Santos disse...

O pagamento aos membros do júri de um tribunal remonta a Atenas, por forma a assegurar que todos podiam participar na administração da justiça e não apenas os mais ricos...

Porfirio Silva disse...

Pois, Jaime, não sabia. Mas julgo que nessa altura, em geral, era preciso ser possuidor de riqueza suficiente para se dedicar à política, por causa do desperdício de tempo que implicava, com o consequente desleixo dos negócios.

Max disse...

O que está aqui em causa não é o facto da classe politica dever ser paga e isso ser um a forma de os representantes do povo poderem influenciar o poder. O problema é o excesso de mordomias a que um bom principio possa ter levado.

Porfirio Silva disse...

Max,
Concordo que a justa retribuição e o excesso de mordomias são duas coisas diferentes.
A minha questão é que se tende hoje para chamar "excesso de mordomias" a qualquer coisa. No "debate" recente sobre os 4 carros alugados para os 70 e tal deputados do PS, houve quem escrevesse por aí "vão de autocarro", "vão de bicicleta" ou "mas os deputados não tinham carro antes de serem eleitos?".