17/10/12

alô, é do governo? está aí alguém?!


O debate internacional acerca da forma como as instituições relevantes estão a obrigar os países a lidar com a crise está cada vez mais animado. A noção de que continuamos a cozinhar o desastre é cada vez mais nítida (ver abaixo notícias do FMI).
Alguns, contudo, ainda andam pelas redes sociais, televisões, blogues e jornais a fazer de conta que nada disto existe, que tudo isto é fado. São como aqueles guerrilheiros que continuam perdidos na selva, a disparar as suas armas impotentes contra inimigos que persistem em imaginar, sem saber que a sua guerra já acabou, que os seus comandantes já desertaram, que o mundo é já outro.
Que isto se passe com esse mundo de guerrilheiros perdidos no mato (entre os quais se contam os que ainda tentam culpar o Tribunal Constitucional por exercer a vigilância do respeito pela lei fundamental), é o menos. As ilusões não se lavam com sabão, percebe-se. Agora, que o governo de Portugal, também ele, continue perdido em parte incerta, escondido da Europa, mudo como um alienado, é que não se percebe. Um governo que não entende que a batalha na frente europeia é a batalha de todos os dias, é um governo regional. Menos: um governo calado na Europa, que se limita a acenar em concordância com as reguadas, é um governo que vale menos que uma junta de freguesia.
É preciso mobilizar a inteligência de Portugal para entrar no debate internacional das alternativas. Não falo de levar Louçã a manifestações na Grécia. Nem de mandar Borges tentar recuperar o contacto com os seus amigos do FMI ou da Goldman Sachs. Falo, por exemplo, de organizar uma conferência internacional para debater as alternativas no caso português. Conferência que pode ser organizada em Lisboa ou em Frankfurt, em Zurique ou em Nova Iorque, em Paris ou em Estocolmo. Falo, por exemplo, em incentivar alguns dos nossos académicos a pedirem audiências a Merkel e aos primeiros-ministros que tendem a ser mais duros com Portugal. Falo, por exemplo, de incentivar as nossas universidades a convidar académicos estrangeiros que não nos compreendem para debater cá as nossas alternativas. Pugno por uma ofensiva de pensamento ao nível internacional, ao nível europeu e mais longe. Se o Álvaro é tão orgulhoso do seu recanto académico no Canadá, use esses contactos de emigrante, que nós agradecemos (já que o Gaspar se entretém a lembrar que fomos nós que pagámos para ele saber tão bem como dar cabo de nós).
Isto, claro, deveria sempre ser acompanhado de uma atitude do governo que não fosse de submissão e reverência face aos nossos parceiros internacionais. Porque a nossa perda de soberania começa com o nosso silêncio na política europeia. E se há silêncios que custam caro, este é um deles.

***

FMI: redução da dívida pública leva tempo e tem de ser realista.

Jorge Nascimento Rodrigues no Expresso:

Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre as políticas de ajustamento orçamental nos países desenvolvidos aponta para três lições e analisa "o bom, o mau e o feio" em 26 episódios em que a dívida pública esteve acima de 100% do PIB. (...)

Da história económica dos ajustamentos orçamentais desde o final do século XIX nos países desenvolvidos com níveis de dívida pública (bruta) superiores a 100% do Produto Interno Bruto (PIB), retiram-se lições importantes para a atualidade, segundo um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) publicado no "World Economic Outlook" (WEO) divulgado na semana passada em Tóquio. (...)

Ainda que os pacotes de políticas em cada um dos 26 episódios analisados tenham sido muito diversos, a equipa do FMI liderada por John Simon, Andrea Pescatori e Damiano Sandri retira, para a atualidade, três lições:

# A redução com sucesso da dívida pública requer tanto consolidação orçamental como uma mistura de políticas que apoiem o crescimento económico. Aspetos fulcrais são uma política monetária que apoie o crescimento e medidas que ataquem as fraquezas estruturais na economia;

# A consolidação orçamental deve privilegiar reformas estruturais e persistentes das finanças públicas e não medidas orçamentais temporárias e de curta duração que não gerem uma trajetória de redução consistente;

# Reduzir a dívida pública e o défice orçamental leva tempo, e ainda mais num contexto de ambiente económico externo fraco como é o atual. Mesmo em contextos mais favoráveis, no passado, "melhorias sustentáveis de mais de um ponto percentual por ano são raras".

O estudo aponta ainda para dois alertas:

# As políticas de "desvalorização interna", como a que foi seguida no Reino Unido depois da 1ª Guerra Mundial, são particularmente arriscadas. Em geral, têm custos elevados. No caso britânico teve resultados "desastrosos" - mais desemprego, crescimento económico medíocre durante duas décadas e continuação da trajetória de aumento da dívida pública. O ambiente social e político aqueceu culminando com a greve geral de maio de 1926. Determinar se o custo dessa "desvalorização interna" ultrapassa o benefício para a competitividade exige mais investigação;

# A situação atual de continuação da crise internacional aponta para um "ambiente externo" que não é favorável, ao contrário dos casos com sucesso no pós-2ª Guerra Mundial e nos anos 1980 e 1990. "As expetativas sobre o que se consegue alcançar têm de ser colocadas de um modo realista", sublinha o FMI. (...)

Vale a pena ler na íntegra.





1 comentário:

António Pedro Pereira disse...

Caro Porfírio:
Pode pedir-se a um canhoto que escreva com a mão direita?
Experimente.
Pode explicar-lhe as vantagens, tentar persuadi-lo, aliciá-lo com vantagens, mas jamais conseguirá.
Faz parte da sua natureza,é mais do que uma aprendizagem.
O mesmo se passa com a Troika portuguesa (Passos, Gaspar e Moedas), eles são iguais à Merkel, pensam, portanto, como ela, não se lhes pode pedir que pensem e ajam de outro modo.