18/09/12

o trânsito na rotunda.




Entraram ontem em vigor as alterações ao trânsito na rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa (regime experimental). Há vários aspectos do folclore associado que merecem ser analisados por quem se interesse pelo funcionamento das nossas sociedades.
Desde logo, mexer nos hábitos e rotinas é muito complicado: nós não somos máquinas de calcular, não computamos com uma racionalidade furiosa os prós e os contras de cada uma das alternativas de comportamento que se nos apresentam a cada momento, a maior parte do tempo fazemos aquilo a que estamos habituados. E ainda bem: seguimos hábitos e rotinas para deixar o nosso "pensamento" dedicar-se a outras coisas. É essa a principal razão para estas mudanças em aspectos rotinados da nossa vida comum serem difíceis de entrar em funcionamento.
Prever as dificuldades práticas de tal adaptação é difícil. A Câmara de Lisboa, mesmo tendo passado meses a estudar a alteração, não previu, por exemplo, que as pessoas teriam tendência a ir pela rotunda exterior, mais lenta, mesmo que fossem para os principais destinos, servidos pela rotunda central, porque achavam estar assim a proceder com mais cautela. Mesmo sendo difícil prever, até com aturado estudo, há sempre quem tenha sentenças a ditar desde o primeiro minuto: ouçam-se as declarações dos sábios do costume, ao volante da sua viatura, antevendo novo terramoto em consequência de um esquema que, dizem, está fadado a fracassar. É assim: há sempre quem tenha visões miraculosas, instantâneas e precisas, de tudo e mais alguma coisa ao cimo da Terra; há sempre quem suponha saber tudo do mundo, de todos os recantos do mundo, em todas as especialidades e sub-especialidades. (Como aquele pescador, ontem no Prós e Contras, que criticava que, onde antes estava a escola de pesca, estivesse agora a Fundação Champalimaud, que, dizia ele, toda a gente sabe que não serve para nada. Sem que ninguém, excepto o tímido esboço de protesto da apresentadora, lhe sugerisse que não confundisse o mundo com o redondo da sua barriga e lhe pedisse para não expandir a arrogãncia opinativa para lá da fronteira do ridículo.) Mas estas mudanças são sempre pasto para o "achismo", onde toda a gente, quanto menos estudou o assunto mais se acha dotado de saber prático para achar isto e aquilo.
Finalmente, falo por mim: somos frequentemente preguiçosos e deixamos para depois o que se podia fazer antes. É verdade que, praticamente não usando carro em Lisboa, como conduzir no Marquês é assunto que não me toca muito. Mesmo assim, só ontem, perante a constatação do caos, voltei a olhar para os esquemas explicativos para perceber o essencial: vamos pela rotunda interna para os três grandes destinos ali servidos, vamos pela rotunda externa para os demais. O resto virá da experiência, quando lá tiver de passar. Não custava nada ter pensado nisso há mais tempo...
Convicção minha: António Costa, pragmático e focado nos resultados, vai levar mais esta alteração a bom termo, continuando assim o trabalho de formiga, que tem melhorado muita coisa com contenção de custos e com intervenções que parecem localizadas mas, realmente, mostram um conhecimento do quotidiano concreto das pessoas e uma atenção às pequenas coisas da qualidade de vida.

2 comentários:

Júlio disse...

Só porque o início do texto não faz sentido dado que redunda numa falsidade absoluta: " maior parte do tempo fazemos aquilo a que estamos habituados. E ainda bem: seguimos hábitos e rotinas para deixar o nosso "pensamento" dedicar-se a outras coisas." Não sei se estudaste Psicologia em algum momento da tua vida, mas isto está tudo escandalosamente errado. Não, nós não seguimos os hábitos cegamente, mais que isso, não os seguimos quando há alterações. E também não o fazemos para dedicar o nosso "pensamento" a outras coisas, pois existe uma dualidade de "pensamento (que nem sequer é o termo correcto, mas usemos este) que reside na memória de trabalho, aquela que aplicamos para a resolução de pequenas questões que se deparam na nossa vida, e a memória que vulgarmente (mais uma vez erradamente) designamos como raciocínio consciente. A memória de trabalho ocupa-se de todas estas questões, e não segue os hábitos de forma cega, alias vai constantemente alterando-se e formulando alternativas contrafactuais, para que os nossos comportamentos sejam mais eficazes. Não que discorde da rotunda, mas ocupar dois parágrafos a atacá-la com profundas falsidades, retira alguma credibilidade ao restante.

Cumprimentos

Porfirio Silva disse...

Júlio,
Para começar pelo princípio: decide-te: ou o meu texto "não faz sentido" ou (em alternativa) "redunda numa falsidade". Um enunciado sem sentido não pode ser usado nem para expressar uma verdade nem para expressar uma falsidade. Para glosar as tuas palavras: não sei se estudaste lógica em algum momento da tua vida, mas convinha.
Quanto ao resto: pretender uma precisão de artigo científico num post (o que é pensamento?) não é muito adequado. Mas, no essencial, mantenho: que a principal utilidade dos hábitos é dispensar a permanente deliberação racional, pelo que é errado supor que agimos em modo deliberado (raciocinado) em todos os cenários; que os hábitos influenciam fortemente os comportamentos mesmo quando mudam as (algumas das) circunstâncias (quer dizer, são resistentes e fazem-se transferir para situações alteradas).
Ponto interessante, mais complicado, que alguns autores estudam, é o de saber como vamos do modo "hábito" ao modo "deliberação racional" e vice-versa - já que não estamos trancados em nenhum desses modos.
Já agora: a tua conclusão de que eu ataco rotunda mostra que, infelizmente, não consegui que entendesses minimamente o que eu queria dizer com o post. Há dias em que um autor de posts falha a sua missão...
Cumprimentos.