25/09/12

alteração das condições meteorológicas.


Os acontecimentos dos últimos dias provocaram uma importante modificação das percepções básicas das pessoas comuns acerca da natureza da política governamental.

Penso que até há pouco tempo a maioria das pessoas acreditavam que o governo estava a fazer uma política que, embora causadora de grandes estragos na vida de muita gente, estava de certo modo sobre-determinada pela pressão da troika, se destinava a equilibrar as contas públicas, transmitir aos credores a sensação de sermos um país esforçado e empenhado em respeitar os compromissos, sendo que tudo isso deveria permitir a prazo voltarmos a poder financiar a República nos mercados. Julgo que mesmo muitos dos que estavam convencidos que, por razões internas ou externas, esta política não daria os resultados pretendidos, ainda assim creditavam ao governo aqueles objectivos e lhes reconheciam validade. O caminho era duvidoso mas valeria a pena deixar o governo tentar.

Sinto que essa percepção desabou nos últimos dias. Não se trata "apenas" de o governo ter anunciado uma medida (a modificação da TSU) vista como brutalmente injusta, tirando do trabalho para dar ao capital. Isso já foi sobejamente comentado. Trata-se, em acréscimo, de estar agora generalizada a percepção de que o governo tomou essas decisões com extrema ligeireza, sem fundamento sério e sem boa compreensão técnica das possibilidades de acção alternativa.
Se o governo pôde tão rapidamente prescindir do aumento de 7% na contribuição dos trabalhadores para o financiamento do sistema social, sendo tantas as vozes nesse sentido, isso não quererá dizer que pensou pouco antes de ameaçar com essa medida? Se um leque tão vasto de organizações, não apenas do lado dos trabalhadores, mas também do lado dos patrões, apresentam alternativas e o governo diz que as vai estudar - não quererá isso dizer que afinal havia mesmo outras vias e o governo não as tinha considerado com suficiente atenção? Se, pelos vistos, o próprio governo também apresentou ideias aos parceiros sociais acerca de como recolher as receitas necessárias por outras vias - por que não pensou nisso antes? Se, afinal, cobrando mais aos trabalhadores e menos aos patrões, não se ia poupar assim tanto, não será que se estava a programar uma "punção" escusada? Se a Troika agora vem dizer que não conhece nenhum estudo do governo que fundamentasse aquela mexida na TSU, não será que o governo anda demasiado ligeiro a saltar-nos em cima, já não curando sequer de estudar bem as suas medidas antes de nos ir ao bolso?

A meu ver está aqui uma mudança importante de atitude: as pessoas passaram a desconfiar do governo, incluindo o primeiro-ministro e o ministro das finanças, não apenas em termos de conteúdo das políticas, mas também em termos de seriedade: afinal, andavam a fazer de conta que estudavam tudo muito bem estudadinho e só pediam os sacrifícios indispensáveis, mas na realidade tomam decisões tão graves com grande ligeireza. Uma certa resignação, mesmo entre os que discordavam politicamente, pode ter dado lugar a uma desconfiança fundamental: a suspeita de que andavam a brincar com as nossas vidas como quem joga com números em papéis.

Não estou sequer a dizer que as coisas do lado do governo sejam exactamente assim. Estou a dizer que me parece cheirar uma alteração das condições meteorológicas: o tempo está para desconfiar da seriedade que esta gente coloca na função de nos governar em tempos tão difíceis.



2 comentários:

Anónimo disse...

Esta sensação de desconforto já tinha acontecido com a sobretaxa do IRS, tomada por questões "preventivas" e que se veio a confirmar completamente desnecessária.
O pessoal foi enganado uma vez, duas é demais...

António Pedro Pereira disse...

Caro Porfírio:

«as pessoas passaram a desconfiar (...) não apenas em termos de conteúdo das políticas, mas também em termos de seriedade: afinal, andavam a fazer de conta que estudavam tudo (...) mas na realidade tomam decisões tão graves com grande ligeireza.»
Permita-me discordar de si.
Eu sempre achei que eles sabem muito bem o que querem e para onde vão, são sérios e estudam muito, falta-lhes é a sabedoria política suficiente para enganarem as pessoas e as levarem a aceitar de bom grado o que pretendem: e pretendem tão só alterar a relação na distribuição dos proventos capital / trabalho (agora falam em baixar de novo as indemnizações por despedimento).
Isso sempre foi o discurso da Troika, via FMI, baixar os custos do trabalho. As contas pública podem esperar, a crise foi o contexto útil que o permite.