11/07/12

os lobos.


Passo a citar.

Depois do 25 de Abril muita coisa melhorou. Basta ver os números e conhecer o País. Mas ficámos a meio. E estamos a regressar ao passado. A classe média oriunda de famílias pobres está a ser preparada para regressar ao seu lugar de origem. Os pobres a ser preparados para se habituarem, sem esperança, à sua condição. Sem os "privilégios" do Estado Social e sem qualquer condição para entrarem no elevador social que o Estado Providência lhes começou, há tão pouco tempo, a garantir. Enquanto os donos de Portugal e os seus avençados tratam das suas privatizações e das suas parcerias, dizem a quem vive do seu salário: "Não há dinheiro. Qual destas três palavras não percebeu?"
O homem honesto voltou a ser o que trabalha sem direitos, se cala e tudo consente. Esta é a propaganda que nos vendem todos os dias em doses cavalares: tudo o que fizerem será ainda pior para vocês. Empobrecer é inevitável. Resignados na sua pobreza obediente, tudo se pode fazer a quem apenas depende do seu trabalho. O milionário Warren Buffet disse, em 2006: "há guerra de classes, com certeza, mas é a minha classe, a classe rica, que faz a guerra, e estamos a ganhar". Não é só em Portugal que assistimos a este retrocesso.

Autor: Daniel Oliveira. Na íntegra: A pobreza calada.

5 comentários:

Jaime Santos disse...

Infelizmente, eu calho de achar que o DO têm toda a razão. Foram as elites que falharam o resto dos Portugueses nestes últimos 25 anos, e são estes últimos agora que sofrem as consequências desse falhanço. E mais duro se torna perceber isto se pensarmos que o PS, ao contrário da Direita, enquanto proclama o combate às desigualdades como parte integrante dos seus princípios (e combateu-as mesmo através de inúmeras políticas), de pouco se distinguiu desta última na promiscuidade entre o Poder Político e o Económico. Olho para isso como o maior erro de Guterres e de Sócrates... É que, tal como aconteceu ao PASOK, os votantes na Esquerda Democrática em Portugal não votam no PS para o verem comportar-se como a Direita...

Porfirio Silva disse...

O meu maior motivo de preocupação com o papel do PS na vida política portuguesa é esse: a promiscuidade com o poder económico. Claro que as pessoas que fazem política e os partidos não podem ser mundos separados da economia (não me parece que só a direita possa ter administradores), mas certas "passagens para a outra margem" são duvidosas. E as influências discretas ainda mais do que duvidosas. Ora, se eu acho que a esquerda da esquerda (PC e BE) se fartam de dizer disparates quanto às ideias do PS, porque diabolizam estupidamente os "social-democratas", já me parece que estas questões de autonomia do político face ao económico são realmente preocupantes no que toca ao PS. Não à instituição PS, mas à malha social que faz o PS.

Jaime Santos disse...

Pois Porfírio, mas quantos são Social-Democratas dentro do PS? Sócrates era um Social-Liberal com uma posição progressista no campo dos direitos das Minorias e das Mulheres (algo que a Direita Católica não lhe perdoou) e com preocupações sociais (complemento solidário para idosos, Novas Oportunidades), mas a sua relação com o poder económico era francamente nebulosa: PPPs a rodos, rendas excessivas para o setor energético, falta de acautelamento dos interesses ambientais, etc. Isto já para não falar das nomeações que fez para Empresas Públicas ou participadas pelo Estado (e não me refiro aqui a eventuais ilícitos criminais, mas a erros políticos). Um partido de Esquerda não se pode comportar como a Direita com alguns pozinhos de Social-Liberalismo, porque é sobretudo a Economia que define (ou deveria definir) a clivagem Esquerda-Direita...

Porfirio Silva disse...

Jaime,
Não acho que essa caracterização do PS seja correcta. Acho que hoje é mais fácil perceber que o governo de Sócrates estava bastante mais à esquerda do que alguns o pintam: e não, não estou a falar de questões culturais, estou a falar de economia e sociedade e Estado e tudo isso.

Aliás, curiosamente, exemplos como o das "rendas excessivas para o sector energético" mostram bem como a crítica pela esquerda se pode confundir com a crítica liberal. Os que querem "deixar funcionar o mercado" também acham que o Estado não tem nada que "desvirtuar a concorrência".
Por exemplo, apoiar as renováveis pode ser visto dos dois modos.
Por exemplo, apoiar a capacidade instalada também pode ser visto pelos dois lados. Se for só o mercado a funcionar podemos chegar à situação dos EUA em que de repente há uma quebra do fornecimento de energia. Se queremos garantir as reservas para garantir a energia necessária em qualquer momento, ou faz o Estado directamente esse esforço ou tem de pagar aos privados, porque se eles só ganham quando vendem não vão investir em reservas de potência que não se vendem. (Houve este debate há pouco tempo na Alemanha, mas sem a retórica das rendas, porque há rendas e há outras coisas que não são rendas mas são os argumentos de quem acha que tudo tem de ser feito directamente pelo Estado.)

Mas são só exemplos do que, a meu ver, há uma avaliação do governo de Sócrates em que, estranhamente, a direita e a esquerda se juntam. Não será um pouco estranho?

Jaime Santos disse...

Não me referia às renováveis mas sim a aspectos como a legislação relativa à cogeração (que não vem só do Governo de Sócrates) ou das garantias de potência. Mas concordo que é difícil ter uma política de investimento em renováveis descurando estes outros aspetos. Já quanto à crítica aos preços da eletricidade, ela é de fato a mesma e não vejo porque a Esquerda e a Direita não possam concordar nisso, a saber, que os consumidores (privados e industriais) pagam um preço excessivo pela energia, o que é prejudicial para o crescimento económico. Se temos de fato que pagar um preço elevado pela Energia, para diminuir o consumo e estimular alternativas aos combustíveis fósseis, isso deve ser assumido, só que nunca o foi...