5.7.12

o conto de fadas sobre a derrota da senhora Merkel.



A edição de hoje da Visão, em artigo intitulado "Europa: A revolta do sul", volta à teoria mais difundida sobre a última cimeira europeia (reunião do Eurogrupo incluída). A tese é, como se depreende do título, que Monti e Rajoy, pela Itália e pela Espanha respectivamente, com o socialista Hollande atrelado, tramaram a senhora Merkel e lhe impuseram uma derrota. Acho que essa tese, embora popular, esquece muita coisa que interessaria ter em conta.
Explico-me.

Em primeiro lugar, os líderes europeus aproveitam muitas vezes as decisões tomadas em Bruxelas para venderem em casa linhas de rumo que, das duas uma, ou querem tomar mas não querem assumir, ou não querem tomar mas a isso são obrigados. Desta vez, a chancelerina alemã, que tinha precisado de um acordo com a oposição social-democrata e verde para obter os votos necessários à ratificação do tratado do "Compacto Fiscal", aceitou em Bruxelas decisões que não eram do seu agrado mas das quais precisava para cumprir o acordo com o SPD e os Verdes. Entre nós, que eu tenha dado conta, só Teresa de Sousa, num notável artigo no Público, sublinhou esse aspecto. Como em países civilizados os acordos são para cumprir, um acordo entre partidos para a ratificação de um tratado não é coisa com que se brinque: foi isso, em primeiro lugar, que forçou Merkel. Que a coisa seja apresentada na Alemanha como "decisão de Bruxelas" até pode, pois, ser conveniente à senhora Merkel, que não tem de assumir perante os seus eleitores que aquilo já estava na sua lista de compras. Que os seus aliados internos mais radicais (CSU e liberais) a critiquem por isso é, apenas, normal: o cruzamento dos debates nacionais com os debates europeus é, frequentemente, um jogo de sombras, não pode agora espantar-nos.
(De passagem, assinalo que as contrapartidas obtidas pelo SPD e os Verdes pelo seu apoio à ratificação do tratado mostram que as oposições podem aproveitar certas circunstâncias "de Estado" para fazerem valer as suas propostas - sem que os partidos maioritários se devam escandalizar com isso, já que cada um foi eleito para fazer valer o ponto de vista dos seus representados.)

Em segundo lugar, no caso específico do primeiro-ministro italiano, Merkel tinha todo o interesse em dar a Monti uma "extraordinária vitória" que ele pudesse exibir de regresso ao seu país. Como é sabido, o governo "eurocrata" de Monti está ameaçado internamente pelo populismo, seja pelo velho populismo corrupto e imoral de Berlusconi, seja pelo novo populismo quase-nihilista do humorista Beppe Grillo. Aliás, Monti é olhado por todos os partidos italianos como a pedra que terá de ser retirada do caminho em algum momento no futuro: com as cautelas necessárias, mas retirado do caminho. Face a isto, a única coisa que Merkel podia fazer pela sua ideia de estabilidade era dar um balão de oxigénio a Monti: mandá-lo para casa com aura de herói em confronto com a Alemanha era o melhor que se podia encontrar. E foi o que se encontrou, apesar de isso não ter sido fácil de gerir pelos alemães no regresso em casa, ainda por cima com Monti a juntar ao cardápio a fanfarronice da vitória no futebol.

No meio disto tudo, e para acabar a falar um bocadinho mal dos meus amigos socialistas e afins, só não se percebe o papel da Dinamarca na presidência rotativa. Não se deu pela primeira-ministra dinamarquesa em momento algum durante a presidência. Apesar de estar agora muito diminuído o papel das presidências rotativas, esperava-se que os poucos líderes de esquerda que se sentam àquelas mesas aproveitassem para arejar um bocadinho a Europa. Não foi o caso: a condição social-democrata da senhora foi muito bem escondida.
Mas isto são coisas que não cabem nos contos de fadas.