16/06/12

Rio parece que deu uma aula.


Rui Rio defendeu, há dias, que, nas autarquias sobre-endividadas, devia deixar de haver executivos eleitos e passar a haver comissões administrativas. Não há maneira de fugir ao significado político desse pronunciamento: Rui Rio defende um sistema em que haja formas de poder político colocadas fora da esfera da legitimação democrática pelos eleitores (justificadas pela "emergência", como se a democracia só valesse para os momentos fáceis, esquecendo que as grandes democracias continuam a sê-lo mesmo em tempo de guerra, ou até debaixo de bombardeamento).
Rui Rio, que faz habitualmente tudo o que consegue para parecer um político diferente, escreve hoje um artigo no Expresso sobre esta questão, no qual aproveita para se mostrar banalmente pequeno.
O artigo de Rui Rio no Expresso de hoje é um manual de truques básicos: básicos, mas ilustrativos. Que Rio ainda julgue que tem algum conteúdo concreto a acusação de que os seus críticos sofrem da doença do politicamente correcto, é apenas fumaça: adiante (embora seja de notar que RR não distinga fumaça de um argumento). Já escrever que se limitou a "desenvolver uma ideia numa aula", como se alguém acreditasse que a Universidade do Poder Local da JSD é mesmo um espécime de escola de ensino superior, onde se dão aulas, é, mais do que ridículo, uma forma particularmente desajeitada de mentir: o seu discurso foi um discurso político, num contexto político, tentar ocultá-lo é risível. Se o país tivesse ovacionado a ideia de Rio, ele não viria dizer "tenham calma, não me incensem, eu estava apenas a expor um problema numa aula numa universidade"...
Quando Rio, ultrapassados os truques, entra na defesa da sua ideia, continua pequenino: a "suspensão da democracia" justifica-se porque os eleitos para uma autarquia sobre-endividada não vão poder cumprir o programa sufragado: mas não se deveria antes garantir que o eleitorado saiba qual é a situação a gerir após umas eleições, exigindo aos candidatos que se apresentam com um programa adequado à situação, em vez de um programa imaginário para uma situação inexistente? Rio afirma que, em situações de dívida excessiva, os eleitos vão cumprir o programa dos seus antecessores: mas, nas comunidades políticas dos humanos, estamos sempre a continuar o que fizeram os anteriores, não é? Claro: infelizmente, muitos políticos esquecem que não são deuses, que são apenas mais uma camada de acção entre o passado e o futuro, julgam erradamente que são super-heróis com poderes conferidos magicamente pela eleição. Mas esse é um problema corrente, um problema de má compreensão das condições da acção política, não um problema apenas das câmaras sobre-endividadas.
Quando Rio insiste em que as tais comissões administrativas poderiam ser nomeadas pelo Tribunal de Contas, mostra que as suas declarações não foram mal entendidas, nem mal interpretadas: ele defende mesmo que a gestão da coisa pública pode ser reduzida a um algoritmo, que pode ser aplicado por uma entidade "que faz contas e não política" e que aplica "a receita" "objectiva" de um qualquer pensamento único.
Quer dizer: precisamente quando as coisas são mais difíceis, anula-se a política e entrega-se a casa a uma "grande calculadora", porque nessa altura já não haveria escolha política, opções, nem alternativas.
A ideia é de um primarismo atroz, mas, enfim, é uma ideia. Rio tem direito a tê-la e a defendê-la. O que não tem direito é a querer enganar-nos com a sua conversa do politicamente correcto e com a sua tese peregrina de que "a coisa" foi parida numa "aula" (supostamente um lugar onde se podem apresentar monstrinhos sem que alguém peça responsabilidades pelo dito).

Este artigo de Rui Rio é tão honesto intelectualmente como aquele senhor que explicava assim a expressão "Rio é um fdp", cujo aparecimento na capa de uma publicação era de sua responsabilidade: «"Rio" é um substantivo próprio que significa um curso de água e o resto são três iniciais, um verbo e um artigo.» Em qualquer dos casos, cabe-me protestar contra as tentativas de nos comerem as papas na cabeça, de nos fazerem de tolos.

4 comentários:

José Sanches disse...

Assusta um pouco esta teoria que a política não deve ser feita por políticos.
Assusta muito a tentativa de legitimar burocratas sem nome nem cara à frente da coisa pública.

Jaime Santos disse...

Lá para as bandas do PSD está a tornar-se muito popular a ideia de que é preciso suspender a Democracia por um certo período de tempo para meter primeiro o País na ordem... A ideia já foi experimentada, com muito maus resultados... Como o problema das contas públicas tem sido em grande medida de falta de transparência política (e aí o PS tem muitas culpas no cartório, a começar pela atitude benevolente com Jardim e a acabar no recurso às PPPs a torto e a direito por parte de Sócrates), eu diria que o que precisamos é de mais Democracia e mais responsabilização (política) dos Eleitos, não de comissões tecnocráticas que supostamente são mais competentes e não têm que responder pelas suas escolhas (políticas)...

Anónimo disse...

Chamo-me Manuel Leitão e sou o editor do PortoMenu. Quem lhe disse que o que o Público me atribui como tendo eu dito (ainda por cima entre aspas!) é verdade? Perguntou-me a mim? O PortoMenu não é clandestino - tem registo legal, contactos telefónicos e postais, site e página no facebook. Demonstra com a seu comportamento, lamentavelmente, falta de responsabilidade. Agora, para terminar em beleza, só lhe falta censurar este esclarecimento...

Porfirio Silva disse...

Como não tenho maneira de saber se o anónimo é ou não Leitão de apelido, nem me vou dar ao trabalho de responder. Para o efeito, pode escrever-me, com identificação, para o e-mail deste blogue.
Quanto à censura, seja lá o anónimo quem for, apenas isto: não julgue os outros por si.