05/05/12

a tentação da expulsão.



Boaventura Sousa Santos terá afirmado que "Vítor Gaspar tem passaporte português mas é alemão". Discordo desse tipo de abordagem. A divergência política ou ideológica não pode excluir nenhuma das partes da discordância, não pode atirar o outro para o lado de fora da fronteira da comunidade de discussão. As ideias não têm pátria e é duvidoso que as pátrias ainda tenham ideias. Numa comunidade democrática não é admissível que se tente colar a ideia do outro à ideia do inimigo tal como o figuramos no nosso discurso. BSS não é um político qualquer que não conhece o peso das palavras. Devia ter vergonha de deixar sair da sua boca uma coisa destas. Uma pena: até porque certamente esta infeliz abordagem não nos deve desaconselhar de ler com proveito o resto.

3 comentários:

Anónimo disse...

Caro Porfírio,

Parece-me que você sublinhou acima de tudo a tentação sensacionalista da comunicação social que para nos atraír para as suas notícias muitas vezes recorta para o título uma passagem mais polémica de todo um discurso.

Quando lemos a entrevista julgo que colocamos essa afirmação no devido contexto no qual, a meu ver, é sugerido que Gaspar tem uma abordagem ao seu ministério muito grudada à abordagem alemã e que, portanto, não parece querer diferenciar o que serão as necessidades alemãs daquelas que serão as nossas - onde, portanto, se partilhamos necessidades comuns com eles temos outras que são bem nossas.

Julgo que Boaventura S. Santos diz, com essa metáfora, que Gaspar não cuida das necessidades que são especificamente nossas e está focado apenas nas necessidades que partilhamos com os alemães.

Neste sentido parece-me uma metáfora feliz se levarmos em conta que Boaventura S. Santos se coloca como opositor à política do actual governo e se levarmos em conta que Gaspar até hoje nunca realmente esboçou um mínimo de diferenciação em relação à abordagem alemã da crise das dívidas públicas.

Anónimo disse...

Não sei se pus o meu nome no comentário que fiz [justificando a metáfora de Boaventura S. Santos]:

João.

Porfirio Silva disse...

João, eu acho que já tinha percebido o que o BSS queria dizer. Mas continuo a achar mal aquela tentativa de "nacionalizar" as opiniões. Até concordo com muita coisa do que BSS diz (em geral, não li esta entrevista), mas as ideias não podem ser encostadas à ideia de erro ou de "pecado" ("eles defende os alemães, em vez de defender os portugueses") com esta facilidade.