28/05/12

lococentrismo.


(O sol da manhã sobre o betão de Shinjuku, Tóquio. 8-11-2005.)
(Foto de Porfírio Silva.)


«Segundo a interpretação do historiadores europeus, são os indivíduos que tomam a iniciativa de intervir no curso da história. […] Um acontecimento é, pois, o resultado de uma vontade. Ora, segundo a análise de Maruyama [Masao Maruyama, especialista de história das ideias políticas no Japão], nenhum facto histórico no Japão se explica como o produto de vontades individuais. A história é interpretada em princípio como se (a) todas as coisas se formassem por si mesmas, (b) sucessivamente e (c) com força. [Exemplo é o seguinte excerto da] declaração de guerra aos países aliados, e antes de todos aos Estados Unidos, pronunciada pelo imperador a 8 de Dezembro de 1941: […] Chegámos infelizmente ao ponto em que a guerra estoirou contra os Estados Unidos da América e o Reino Unido por uma necessidade que não podia ser de outra maneira. Teria sido assim por minha vontade?»
(Hisayasu Nakagawa, Introduction à la culture japonaise, pp. 19-20)

A este fenómeno chama o autor “lococentrismo”, para significar que, para o japonês, o que comanda e domina tudo é a força do lugar, as forças da terra no sítio onde se está.

5 comentários:

Jaime Santos disse...

O papel da contingência no devir histórico é normalmente subestimado, até porque estamos ainda muito agarrados aos modelos deterministas do sec. XIX, e não apenas os marxistas. Mas creio que não podemos ignorar a responsabilidade dos indivíduos no processo histórico. Teria havido uma Segunda Guerra Mundial sem um megalómano como Hitler, mesmo que a Alemanha tivesse caído sob o jugo do Partido Nazi? A pergunta é claro retórica, porque não temos capacidade de fazer História contra-factual... Mas também é verdade que a própria ascenção do Nazismo não poderia provavelmente ter acontecido noutro País que não a Alemanha, quer fruto dos problemas económicos que se seguiram à formação da República de Weimar, quer devido ao clima de humilhação produzido pelo tratado de Versailles. Ou seja, definitivamente temos uma conjugação dos fatores ligados ao lugar e daqueles ligados ao carácter dos indivíduos...

Porfirio Silva disse...

Jaime, o seu argumento pressupõe que a irrupção dos indivíduos na história escapa ao "lococentrismo"...

Jaime Santos disse...

Sim, Porfirio, mas o lococentrismo pressupoe que as accoes individuais sao inteiramente determinadas pelas circunstancias (espacio-temporais), ou seja, pela contingencia, mas igualmente por fatores que associariamos mais ao determinismo historico (isto e, efeitos da cultura local na accao dos individuos na epoca dos acontecimentos em questao). Portanto, o debate acaba por ser um entre o livre-arbitrio (mesmo parcial) dos agentes historicos e a hipotese contraria, de que as suas accoes sao inteiramente determinadas por fatores que lhe sao externos. E com isto regressamos a Metafisica... Enfim, desisto...

Porfirio Silva disse...

Não vale desistir eh eh eh...
É engraçado: a minha desgraça metafísica é que eu acredito em alguma coisa que seria uma espécie de materialismo dialéctico, pelo que nunca me consigo fixar num dos pólos do problema... ao mesmo tempo que não posso admitir que seja materialista dialéctico, nem mesmo dialéctico, mesmo que idealista, porque isso está tão tão tão fora de moda... :-)

Jaime Santos disse...

Eh, eh, eh, ó pra mim, o reducionista encartado, a cair no pecado capital do Idealismo... Pois, percebo o que quer dizer, creio que quem quer que se proclame da área da Social-Democracia ou do Socialismo Democrático não consegue nunca matar o velho Pai Marx (eu incluído) ;-), por mais que ele seja declarado fora de moda. Mas, mesmo assim, dou de barato que o problema da oposição Mente-Corpo e o problema relacionado do livre-arbítrio podem não ter uma explicação baseada na fisiologia do Cérebro. Já por isso (e não apenas por isso, claro), não descarto as posições religiosas, embora seja completamente a-religioso nos tempos que correm...