02/05/12

E se o Pingo Doce tivesse escolhido o dia de Natal?


Por muita repugnância que nos causem os descontrolos consumistas (a mim, causam), é preciso manter a calma suficiente para perceber que o essencial não é necessariamente o mais visível. A reflexão do Sérgio Lavos sobre a bomba do Pingo Doce ajuda a perceber que pode não ser produtivo limitarmo-nos a apontar o dedo aos demais. Falta-lhe, a meu ver, uma menção explícita ao carácter simbólico da escolha do primeiro de Maio para festa do consumo. É que tentar riscar datas do calendário, para lá colocar brindes de supermercado que fazem os compradores correr e arfar, vale mais, para certos "empresários", do que qualquer objectivo comercial. Sim, porque quem tem muito dinheiro gosta, frequentemente, de o gastar em ideias - em geral, nas suas ideias acerca do valor intrínseco do seu dinheiro.
O Pingo Doce não é um caso de polícia, é um caso de sociedade.

2 comentários:

Vega9000 disse...

Chamar a um texto, de um tipo supostamente "de esquerda", que brinda o povo que aproveitou um muito bem vindo desconto com nomes como "zombies" e "estúpidos", dizia eu, chamar a isso "reflexão" é no mínimo original, caro Porfírio. E preferia chamá-lo "nojo". Uma vergonha. Não sabia verdadeiramente o que significava "esquerda caviar". Depois do que tenho visto das reacções de certa auto-denominada "esquerda" ao episódio Pingo Doce, agora já sei.

Quanto ao dia de Natal, é uma pergunta bem curiosa, porque estava aqui precisamente a pensar que para muita gente o que se passou ontem esteve ao nível da blasfémia em dia santo. Curioso, não é?
(este comentário vai sem filtro, com as minhas desculpas, mas este tipo de coisas põe-me fora de mim)

Porfirio Silva disse...

Caro Vega9000, desculpa só publicar agora o teu comentário, mas andei fora o dia todo.
O texto que tanto te irritou tem várias virtudes interessantes, uma das quais é desmontar a ideia de que os trabalhadores do PD são, apenas por serem empregados da Jerónimo Martins, automaticamente prejudicados por uma acção deste género (a exploração genérica n~eo é sempre exploração em todos os casos). Outra dessas virtudes é explicar que estas cadeias exploram os fornecedores tanto como exploram os trabalhadores (o que explica que não tem de haver dumping, o que aliás já não haveria pelo carácter pontual da iniciativa).
Outra virtude desse texto é não esquecer que muita daquela gente que acorreu em massa é realmente responsável pelo seu próprio comportamento, não podemos tratar toda essa gente como crianças que não tem responsabilidade pelo que faz. É alienação pura e dura, como tb o é ver sistematicamente certos programas de TV.
Claro que seria muito mais "de esquerda" não dizer nenhuma destas coisas e limitarmo-nos a bater no patrãoop da chafarica, mas acho que isso seria de pouca valia.
De qualquer modo, a minha discordância básica com o texto de SL deixei-a explícita no meu post - e é a necessidade de focar a questão simbólica.

Espero que não fiques mais "fora de ti" com esta resposta, mas, acontece, não vomito sempre pelos mesmos motivos que tu !