04/04/12

o fingido e o verdadeiro não são coisas de teatro.



Na Cornucópia, "Fingido e Verdadeiro ou o martírio de S.Gens, actor", que é "Lo Fingido Verdadero" de Lope de Vega adaptado por Luís Miguel Cintra.
É, se queremos ficar pela rama, uma espécie de drama histórico sobre o padroeiro dos actores, que se converteu ao cristianismo quando estudava os cristãos para os representar como figuras do ridículo para os romanos. É, se queremos ir ao que mais dá, sobre a condição de representar com verdade o que não é verdade: o que dá a verdade com o mundo, o que dá o mundo à verdade. Só que, sempre, nas mãos de Cintra a coisa complica-se.
Espectáculo de desconstrução e reconstrução com os fragmentos a caminho de uma nova unidade. Não apenas do texto, onde os fragmentos são da peça original, de textos que serviram de fonte para Lope de Vega, de textos filosóficos e teatrais outros, a servir a reflexão sobre o teatro, a verdade e a representação tal como a vida os interroga. Mas também desconstrução/reconstrução da acção, onde a tragédia do martírio se mescla com o burlesco; onde o sermos puxados para dentro do clímax dramático original se mistura com o distanciamento propiciado pelas personagens excessivas; onde os enganos que devem cair sobre o espectador vão de par com os enganos que regressam para tombar sobre a cabeça do actor/autor; onde o riso desfazedor quebra a seriedade das evocações dos mártires. E onde, por tudo isto, temos fé que o novo crente que Cintra se afirma não matou o encenador e actor fenomenal e profundo que continua a ser (talvez cada vez mais, quanto mais isso se faz do seu vigor intelectual e menos do seu vigor físico).
E o cenário-como-se-nada-fosse-com-ele faz parte da estratégia geral de desconstrução e reconstrução, a trabalhar só com o esqueleto do mundo, pedindo-nos que vejamos o abstracto por detrás do visível, jogando só com as grandes linhas, como se fosse um esboço, em vez de nos resolver a preguiça com todos os detalhes que teria um cenário pintado até à última mancha de dourado e sanguíneo.
Da operação geral de desconstrução faz parte a encenação do não-espectáculo, da peça representada como a balbúrdia do ensaio, do guarda-roupa apresentado como se estivesse ainda por fazer, do objecto teatral que nasce à nossa frente pelo puro trabalho de parir (como se estivéssemos a ver nascer o que já é, afinal, maduro). Daí que espectadores mortos de riso tenham podido coexistir com actores chorosos. Daí que registos se cruzem como se tudo aquilo fosse leve: mas, claro, com a armadilha de se poder perder tudo aquilo se insistirmos em rir quando é para chorar e em chorar quando é para rir, já que não podemos ver de qualquer maneira se queremos pensar. Mau-grado o trabalho de citação sobre a verdade e sobre (as mentiras de) os sentidos, a questão é que os olhos não vêem: quem vê somos nós.


1 comentário:

Ana Teresa Diogo disse...

Belo comentário, Porfírio!(diz quem assistiu a este trabalho total que o teatro, nos seus melhores momentos, pode ser, a esta minúcia só aparentemente descuidada, a este exercício comovente de artifício em busca da verdade)