10/04/12

crónicas desenhadas.



Acabei de ler, aos poucos que a vida não está para bonecos, Chroniques de Jérusalem, de Guy Delisle (Edições Delcourt, colecção Shampoing, Novembro 2011). No Festival de Angoulême 2012 ganhou o prémio para o melhor álbum, a juntar à aclamação e outras distinções que Delisle tem vindo a acumular.


Guy Delisle tem uma linha de trabalho que passa por observar e reportar o que se vive em sítios distantes: distantes pela geografia, pela diferença ou pelos obstáculos culturais e políticos que se interpõem entre os mais entre nós e esses locais. Uma parte importante da compreensão da sua obra é sempre o entender como é que se passou a sua aproximação a esses espaços.



Nunca li com suficiente atenção nenhuma das suas obras anteriores, pelo que não as vou comentar. Contudo, li e vi este trabalho com suficiente atenção para o recomendar. Escrever sobre Israel e a Palestina, a partir de uma vivência de um ano no local, foi certamente desafiante.


Delisle toma partido, mas nunca toma partido contra a nossa inteligência: não trata de nos impor coisas, embora manifestamente tenha um critério na escolha dos pontos de observação. Genericamente, é mais fácil estar do lado dos mais oprimidos, mas isso nunca é feito como se o mundo fosse a preto e branco.


É importante notar que Delisle não é um turista, embora não se passe a ser um indígena por viver um ano num sítio. De qualquer modo impõe-se o facto de ele procurar, insistindo no que não é facilitado, no que teima em se esconder: o que, aliás, é um aspecto central do retrato de situação que fica traçado.



A história, claro, não se dá a ver aos olhos meramente presentes. É preciso alargar tempo e espaço, coisa que Delisle faz bem, didacticamente mesmo, apesar do risco de que essa operação pudesse redundar num empecilho ao trabalho artístico. Esse perigo não se concretiza, ajudado Delisle pela aparente ingenuidade do seu desenho, que nos faz transitar calmamente entre o quotidiano mais corriqueiro e a lição, sem solução de continuidade e, mesmo assim, sem sobressalto.


A montra de excessos está lá e Delisle não lhe foge. Mas não mete tudo no mesmo saco: toma o seu tempo. São muitas páginas de crónicas curtas, variadas, misturando os altos e baixos de uma vida de expatriado, os imprevistos de homem doméstico com filhos, a turbulência política e social, a convivência variada numa terra de variações muitas, o artista incompreendido porque a BD ainda não chegou a todo o lado, o quotidiano que existe do lado de quem vive na mó de baixo, as excursões ideais aos tempos bíblicos, o rendilhado de grupos religiosos. Tanta coisa - e um álbum com muito espaço para tudo.


E soluções gráficas muito engenhosas para explicar a complexidade do lugar.



Quadrinhos como fotografias turísticas, às vezes - mas, a maior parte das vezes, o autor e desenhador é mais participante do que turista. E isso a dar uma dimensão "os cinco de Enid Blyton para adultos".


Um álbum comovente.


Com o qual se aprende, também.

Por enquanto, acho que só existe em francês. Os outros, algum tempo terão de esperar. Talvez não muito.


Guy Delisle tem um sítio na web com muita informação interessante.
Dentro desse sítio tem um sector dedicado às suas Crónicas de Jerusalém.
E dentro desse sector tem um magnífico recanto onde fornece informação complementar sobre alguns dos aspectos desta obra, incluindo fotografias e vídeos dos motivos originais de algumas cenas.
E ainda existe o blogue que Guy Delisle manteve durante o ano que por lá passou.


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