23/04/12

25 de Abril: a rua e o parlamento.



A Associação 25 de Abril anunciou que não participará na cerimónia de comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República. Vasco Lourenço disse que a Associação não vai porque “a linha política seguida pelo actual poder político deixou de reflectir o regime democrático herdeiro do 25 de Abril”. Mário Soares, em solidariedade, diz que também não vai.

Respeito Vasco Lourenço e respeito Mário Soares. Mas julgo que estas posições são politicamente irresponsáveis. E condenáveis, em alto grau.
Podem ler-se estas atitudes como um mero gesto de oposição ao poder actual, aproveitando o 25 de Abril para tanto. Se o caso é esse, trata-se de um aproveitamento quasi-partidário da data, o que só se pode lamentar. Mas julgo que o gesto da Associação 25 de Abril, apoiado por Mário Soares, é menos circunstancial e mais profundo. Suponho que se trata de querer marcar uma fronteira entre os fiéis ao espírito do 25 de Abril e "os outros". E é aí, precisamente, que as coisas se tornam graves.
Confundir as divergências dentro da democracia com divergências acerca da democracia é perigoso, porque torna os democratas inimigos uns dos outros. Podia dar-se o caso de sermos governados por políticos que quisessem recuperar o autoritarismo pré-Abril, mas não creio que seja esse o caso. Há perigos para a democracia na corrente situação? Há. Há uma degradação da qualidade da democracia nestes tempos que correm? Há. Este clima de agressão social, de ataque aos direitos das pessoas, pode abalar a democracia? Pode. Os governantes, os actuais e outros, têm responsabilidades nisso? Têm. Mesmo assim, os desafios que enfrentamos hoje não são os mesmos a que o 25 de Abril quis dar resposta. Pensar que o 25 de Abril de 1974 tinha, ou tem, resposta para tudo o que se passa no mundo, e que, portanto, o mundo actual pode ser lido em paralelo com o 25 de Abril de 1974, é uma ingenuidade perigosa. Pretender que o "espírito do 25 de Abril" seja uma cartilha de acção política para qualquer momento histórico, ou, pior ainda, pretender que quem "fez o 25 de Abril" é intérprete privilegiado desse espírito, é não perceber nada do que se está a passar. E é uma espécie de apelo aos "teólogos laicos" da democracia como fonte de autoridade política, o que é risível. Perigoso na situação actual é que as ameaças são novas, os riscos vêm de sítios diferentes, as forças em presença têm configurações sem precedentes.
Os perigos do mundo actual assentam em dois pilares. Primeiro, na fragmentação do laço social, com um individualismo sem horizontes, conjugado com a fragmentação generalizada dos espaços de participação, a empecilhar enormemente a capacidade de auto-governo das pessoas aos vários níveis da coisa pública. Segundo, a passagem das alavancas do poder para esferas extra-territoriais desligadas de qualquer poder propriamente político, numa escala sem precedentes. Para lá das maldades domésticas deste ou daquele, é daquelas duas fontes que brotam as nossas aflições correntes, aqui e em muitos lados do mundo. Ora, basta pensar um pouco para compreender que esta situação é muito diferente da situação que o 25 de Abril reverteu (fechamento do país sobre si mesmo, poder político concentrado, encaixotamento social das pessoas em categorias, economia dominada por uns quantos da mesa do poder doméstico, guerra real com mortos e feridos, o Estado como patrocinador de uma linha moral apoiada na hierarquia eclesiástica); e que as respostas necessárias aos problemas de hoje não são as respostas que as nossas belas utopias caseiras queriam dar aos problemas de então. Por isso é que não faz sentido continuar na atitude "quem tem um martelo na mão só vê pregos".
Aquelas atitudes mencionadas acima fazem um corte entre a comemoração do 25 de Abril e as instituições democráticas, disparando contra o próprio parlamento, que é o cerne de tudo o que de essencial a Revolução nos trouxe. É um gesto pesado e perigoso, que não terá nenhuma boa consequência e só pode cavar a distância entre os que vivem na saudade e os que tratam dos vivos. A beleza do 25 de Abril esteve na conjugação da rua e das instituições; este gesto desvitaliza esse nervo vital da memória viva da Revolução dos Cravos. É, por isso, lamentável.

8 comentários:

Jaime Santos disse...

Assino por baixo. Um texto muito belo... A batalha a travar hoje é ao nível dos argumentos e não podemos cair na tentação de classificar posições políticas como contrárias ao espírito de Abril só porque não gostamos delas. Se estão erradas, cabe-nos mostrar porquê, desmontar a sua argumentação e apresentar alternativas. Isto pode parecer ingénuo, mas a alternativa (além de irresponsável, porque coloca como bem diz, democratas contra democratas) é francamente preguiçosa...

Francisco Clamote disse...

Pois bem, embora compreenda o ponto de vista aqui expresso, e bem, como sempre, discordo, Porfírio. A política deste governo é a negação do 25 de Abril. Aliás, tenho para mim que boa parte da direita que nos governa só comemora o 25 de Abril, por pura hipocrisia. Os que não são hipócritas, como é o caso do Alberto João, estão a toda a hora a renegá-lo. E há alturas em que preciso fazer rupturas. Esta é, quanto a mim, uma delas.

Porfirio Silva disse...

Caro Francisco,
Começando pelas partes sujas: o AJJ é um cancro da democracia, a RAM é verdadeiramente uma ditadura - mas o 25 de Abril de limpar aquilo ninguém faz. E é pena.

Mas, felizmente, o país em geral não vive a situação ditatorial da Madeira. A democracia não foi feita só para aqueles que queriam a democracia - e ainda bem. Foi feita mesmo para aqueles que, se vivessem em ditadura, calariam o bico e seguiriam o senhor prior. Não gosto disso, mas a liberdade também é para esses. E isso continua a ser de festejar. Festejo isso. Festejo não terem ganho os que queriam uma "revolução avançada" onde eu se calhar já estaria preso - mas não me sinto mal por celebrarem o 25 de Abril os militares que queriam fazer o socialismo à força.
Se já não somos capazes de festejar o 25 de Abril com as diferenças, então se calhar o 25 de Abril morreu mesmo.

Francisco Clamote disse...

Como disse, Porfírio, compreendo o teu de ponto de vista. Sensato e lúcido, como sempre. Provavelmente, eu é que já perdi a paciência e a lucidez. Abraço.

Porfirio Silva disse...

Francisco, que tenhas perdido a lucidez, não acredito de todo.
Que tenhas perdido a paciência, acredito e compreendo: até é de louvar!
Mas olha que eu também não estou conformado...
Abraço

Anónimo disse...

“Podia dar-se o caso de sermos governados por políticos que quisessem recuperar o autoritarismo pré-Abril, mas não creio que seja esse o caso”. Olhe que está enganado, e na minha modesta opinião é precisamente aí que o PS tem errado, não tem feito a leitura politica correcta dos tempos que correm. Infelizmente estamos num tempo em que são necessárias pessoas com um outro erfil que não o Seguro pois são tempos em que está tudo em jogo...

Porfirio Silva disse...

Anónimo,

Ver diabos em todo o lado não ajuda nada a perceber quais são os verdadeiros infernos. Uma melhor compreensão do que era este país antes do 25 de Abril ajudaria a não meter tudo no mesmo saco.

Anónimo disse...

Acho que houve uma falha de comunicação, pois não foi minha intenção meter tudo no mesmo saco. Aliás acho que actualmente o PS será o unico partido que poderá fazer frente a tudo o que se está a passar, e para isso tem de mudar de atitude, tem de falar para as massas (tem de denunciar as mentiras quando elas são ditas) não pode ficar à espera que as pessoas vejam por si só... tem de lutar com as armas do governo... daí eu entender que o Seguro (que certamente terá qualidades) não é o líder que Portugal precisa neste momento.