13/03/12

cálculos biliares.


Cavaco Silva consegue desiludir mesmo um tipo como eu que sempre o achou o representante específico do pior que há entre nós. E, ainda por cima, hipócrita. Consegue desiludir-me, porque julguei-o capaz de não estar sistematicamente a dizer e a fazer precisamente aquilo de que o país não precisa. Agora vem com este desenterrar extemporâneo da questiúncula com Sócrates pela (não) informação atempada acerca do PEC IV, que seria proposto a Bruxelas para tentar evitar que o país fosse lançado nos braços da "ajuda" externa.
Toco neste ponto para dizer duas coisas.

Primeiro, acho despropositado não reconhecer que Sócrates devia ter arranjado maneira de contar a coisa a Cavaco mais atempadamente. Num país normal, em condições normais, o PR tem de saber o que o governo está a fazer numa circunstância dessas. Claro que Cavaco citou mal a Constituição, fez interpretações abusivas acerca do facto (pressupondo que a delonga na informação é instantaneamente classificável como deslealdade) e fez-de de parvo acerca do que se estava a passar (Sócrates tinha razões para crer que Cavaco, quando soubesse, iria contar aos seus amigos políticos, provavelmente estragando o segredo necessário à concretização do plano). Claro que Cavaco esqueceu a sua própria atitude de continuada deslealdade para com o governo (o que, aliás, continua a ser a sua prática com o actual governo). De qualquer modo, não alinho com a tese de que Sócrates fez muito bem em não informar o PR. Sócrates terá tido, teve de certeza, razões para isso. As circunstâncias explicam o episódio, pelo menos em parte, aceito. Mas isso não justifica que se teorize, constitucionalmente e tudo, para dizer que é pão nosso de cada dia que o PR não saiba o que o governo está a propor de tão importante para o país num Conselho Europeu.

Dito isto, e vem o meu segundo ponto, mais uma vez Cavaco Silva mostra que tem uma visão da história e do país completamente centrada no seu pequeno umbigo. Muito mais importante para o nosso presente e próximo futuro é o facto de Passos Coelho, já então presidente do PSD, ter mentido (fazendo de conta que Sócrates não lhe tinha contado previamente do PEC IV) e ter usado essa mentira para "ir ao pote" e nos lançar a todos nesta triste desventura em que estamos. Se Cavaco fosse capaz, já não digo de olhar para o país e esquecer-se de si, mas pelo menos de se ver no quadro do país; se Cavaco fosse capaz de pensar a sua função como uma magistratura para o pais, o que ele teria lamentado no tal prefácio teria sido a sua incapacidade para promover um entendimento alargado que evitasse a crise política e mobilizasse o país para uma resposta justa aos desafios. A questão é que Cavaco não pensa assim, porque se pensa a si antes do país - além de que Cavaco, o campeão da deslealdade institucional, quer com o PS quer com o PSD, confunde os seus cálculos biliares com o cálculo do interesse comum.

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