02/02/12

poesia e ciência (2).



Subsídios para uma Poética da Ciência



I.

Dirás que à morte
apenas o nada sucede,
o não-ser, o vazio.
Que somos acaso entre acasos
e que o melhor é não pensar,
porque pensar faz doer a cabeça
e é coisa de quem está doente dos olhos.

Mas obrigo-me a pensar
à força de tanto olhar
(em páginas de revistas
e programas que não passam
em canais generalistas),
enxames de galáxias,
redondos planetas,
remotos quasares,
negros buracos comedores de luz,
peregrinos cometas,
nebulosas e pulsares,
estrelas de neutrões coalescentes,
nuvens de gás interestelar,
luas cravejadas de crateras,
sobras da cintura de Kuiper,
astros exilados da nuvem de Oort,
nebulosas reflectoras de luz
- e nebulosas negras, suas irmãs, tão frias
quanto da claridade inimigas -
raios gama, matéria sombra,
vento solar.

Obrigo-me a pensar
e nada me resta senão amar
o nada que o teu nome diz.

II.

Dirás que são também fruto do acaso
os astros?
Que um colectivo de deuses
os instalou acima de nossas cabeças
(e onde nossos olhos não pudessem chegar
sem a assistência dos sonhos)
achando que ficavam bem no céu?
Mas que deuses antes de havermos nós
para os inventarmos à nossa semelhança
(pois sem modelo, que semelhança)?

Quem antes de nós para ver as estrelas,
ter a certeza e baptizar o real?
Alguma coisa havia, decerto,
antes de nós sermos nós,
alguma coisa que não pura teoria,
sob a forma de sonho ou visão
em nossas cabeças invadidas
por dúplices consciências
colectoras de fósseis,
pesquisadoras de rochas,
e inventoras do tempo
com que medir-nos a condição de gente presente
que fabrica o passado
e pressente o futuro.

Para quem o espectáculo do mundo
e do firmamento,
o gigantismo dos primeiros insectos
cuja descendência vive agora
entre páginas de livros,
ou em sótãos pouco frequentados,
quando não passava, o Homem,
de mero projecto embargado
num roedor em busca de abrigo,
decerto já congeminando
engenhoso plano de conquista
enquanto evitava não ser pisado,
ou em tal plano gorado
pelas súbitas navalhas da boca
de um réptil esfomeado?
Para quem o fogo-de-artifício dos vulcões,
a lava, os piroclastos, as nuvens ardentes,
o rasto fulgurante do asteróide
caído algures em desgraça
no Golfo do México?

Para os grandes sáurios terminarem o reinado
num grandioso, wagneriano cenário?
Mas quem, faltando nós, poderia ver,
e dar um sentido a tanta morte?

Para quê tanto trabalho?
Para quê tanto esforço?
Para quê tanto espaço

(se não é para nos perdermos
e depois nos encontrarmos)?

Rui Lage, in Revólver, 2006

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