22/02/12

não foi nesta armadilha que caiu Cameron.


Muitas pessoas querem que alguém na União Europeia faça qualquer coisa para não continuar este disparate de deixar alastrar a crise e a pobreza, só porque há uns tantos que julgam que a crise e a pobreza são marcas de pecado, logo devem ser expiadas. E porque esses mesmos tantos esperam ganhar, algum dinheiro e eleições, com a crise e a pobreza dos outros.
Eu estou entre esses que querem que alguém faça alguma coisa para mudar o rumo.
O primeiro-ministro britânico, mais os primeiros-ministros da Holanda, Itália, Estónia, Letónia, Finlândia, Irlanda, República Checa, Eslováquia, Espanha, Suécia e Polónia, escreveram uma carta a Herman van Rompuy, Presidente do Conselho Europeu, e a Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, clamando por um plano para o crescimento. Está aqui a carta.
Entre as pessoas que, justamente, querem que se faça alguma coisa pelo crescimento, houve em alguns casos uma certa indignação por Passos Coelho não se ter associado à iniciativa.
Acho que há nessa indignação um bom ponto: quem não tenha percebido que a solução para a nossa crise não é possível sem uma solução para a crise europeia, não percebeu patavina deste mundo. O governo do passismo não quer perceber isso por uma razão muito simples: derrubou o governo de Sócrates fazendo de conta que isso não era verdade, fez uma campanha eleitoral demagógica fazendo de conta que não sabia disso. Custa-lhe, pois, agora, reconhecer o nó górdio da sua campanha de assalto ao pote, que foi uma campanha de ilusionista: esconder o jardim zoológico todo, entretendo o eleitorado a olhar para um unicórnio de papel.
Contudo, há dois aspectos a sublinhar quando olhamos para a carta de Cameron e associados.
Primeiro, embora seja interessante constatar que começa talvez a haver mais do que uma direita europeia quanto à forma de pegar a crise, deve notar-se que estão no grupo dos subscritores alguns dos Estados-Membros onde é mais forte o "castigacionismo", a inclinação para castigar "o Sul" pelos nossos pecados.
Segundo, poucos parecem ser os que se lembram de interpretar esta carta à luz dos princípios permanentes da diplomacia europeia dos britânicos. O Reino Unido tem várias tácticas diplomáticas permanentes na UE. Uma delas é que negoceia sempre até ao fim, obtendo o mais que pode da negociação, mesmo que acabe por ficar de fora do acordo final. Outra é que continua sempre a negociar, mesmo depois de ter ficado de fora da solução, para continuamente aproximar qualquer resultado das suas pretensões. Qualquer uma destas tácticas já tinha sido evidenciada na negociação deste tratado tipo-europeu-mas-entre-países-fora-das-instituições (o "compacto fiscal"). Esta carta, agora, exibe outra táctica: o RU nunca fica muito tempo fora de jogo, arranja sempre modo de voltar ao campo da derrota com metade da ex-equipa adversária integrada nas suas hostes, apresentando-se a jogo como campeã de um campeonato por si inventado.
É este último dispositivo que acaba de ser espoletado com esta carta: de repente até algumas almas da esquerda europeia viram os olhos esperançosos para a iniciativa de Cameron. Acompanhado como está, já o disse, por algumas das pátrias dos castigadores.
Os britânicos são uns ases. Confesso que tenho alguma saudade de lidar com a diplomacia deles. Mas sempre me vou divertindo a ver, ao longe, a máquina a funcionar.

4 comentários:

Zuruspa disse...

À partida poderia ser um bom sinal. Mas näo traz nada de novo. Aliás, é um brilhante exercício de "spinning", porque os efeitos do crescimento como estes senhores querem säo os mesmos da "outra direita" (Merkozy).

Só para dar o exemplo finlandês, o PM enche a boca de "crescimento" ao mesmo tempo que quer impor cortes ao serviço público à boa maneira thatcherista. O que é interessante é que o mesmo sujeito, enquanto Min Finanças em tempo de vacas gordas, aumentou substancialmente a dívida pública, no que foi duramente criticado em 2008 pelo agora presidente-eleito Niinistö em directo na TV (Niinistö fora MF nos anos 90 diminuindo em % e valor a dívida pública em tempos bem piores).

Talvez näo seja assim täo estranho, afinal, ele apenas segue a cartilha neoliberal de privatizar serviços públicos e depois fazer o Estado pagar o dobro aos privados que passam a fazê-los, aumentando o défice público, e assim justificando mais cortes.

Estava curioso de ver se a PM dinamarquesa assinara a "Carta". Pois, näo caiu na esparrela. Parece que foi Seguro quem caiu...

Porfirio Silva disse...

Zuruspa,

Plantar o mesmo comentário em vários blogues é imitar torpemente um robô. Essa é mais uma manifestação de falta de respeito por um blogueiro que procura conversar com quem aqui vem comentar. Desagradável. Tomo noto.

Zuruspa disse...

Só plantei este comentário no Aspirina porque fazia sentido fazê-lo. Até o tinha metido aqui primeiro.

Näo quero limitar as minhas leituras nem as minhas conversa a um único blogue. Qual é o problema disso?

Porfirio Silva disse...

Não tem tem nada a ver com limitar as suas leituras. Espero que ninguém leia apenas o meu blogue, porque isso causaria dano a qualquer um. Trata-se de uma coisa bem diferente: plantar o mesmo comentário em blogues diferentes não é "conversar" com ninguém. É uma espécie de spam. É uma descortesia.