09/12/11

relatório Titanic, primeiras impressões.



No que vai de cimeira europeia, a União está menos União: as várias "velocidades" vão-se multiplicando, a caminho de uma arquitectura institucional que se tornará cada vez mais opaca, mais confusa, mais difícil de gerir. Um dos grandes travões, como de costume, vem do outro lado da Mancha. De imediato, a mensagem que se passa para o mundo é que a Europa está dividida. E está, pois.
Mas não é boa ideia fazer dos britânicos a única coisa a correr mal no que vai de caminho. Fazer um arremedo de "governo económico da Europa" com regras automáticas de detecção e punição de desvios orçamentais, quando no passado recente a Alemanha e a França foram as primeiras a eximir-se à má-fila às regras automáticas já existentes, é comprar mais aborrecimentos futuros. Querer tratar os países em dificuldades como protectorados, deixa a milhas de distância aquilo a que até agora se tem chamado perdas de soberania, porque se destina a ser feito de forma intrusiva e humilhante. Mais: porque se destina a domesticar as divergências políticas e as diferenças de interesses entre Estados-Membros, mesmo aqueles que de momento não estão a ser "ajudados", pela ameaça de um futuro incerto: "se um dia tiveres dificuldades, vai pagar cara a ousadia da divergência".
Em troca, fica a esperança (o que é uma esperança financeira?) de que o Banco Central Europeu vai fazer mais pelo euro - mas não se vê qual é a base dessa esperança, dada a respectiva "independência" e os sucessivos sinais de que não quer assumir um papel qualitativamente diferente daquele que tem assumido até agora. Em termos "concretos" (cacau), os fundos/mecanismos de socorro dos aflitos continuam a não chegar para grandes tormentas e o BCE continua a não dispor de todos os meios de acção que estão nas mãos dos bancos centrais de qualquer outra zona monetária. Para compensar, uns tantos países europeus vão emprestar ao FMI para o FMI emprestar a países europeus.
Já hoje, o banco central alemão baixou as previsões de crescimento do seu próprio país para 2012; os juros da dívida francesa baixam um pouco, sobem os da Itália e da Espanha. Parece que uma reunião de chefes da Europa, com a pompa e a circunstância da "última oportunidade", passa por ser mais um dos pequenos episódios que empurram as bolsas para cá e para lá, à espera de amanhã, onde a agitação da cimeira será consumida por qualquer outro estimulador dos "mercados".
Quanto aos aspectos sociais de tudo isto, combater o desemprego, salvar a protecção social, animar a economia - fica para a próxima.

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