30/11/11

uma abstenção violenta.


Os tempos estão difíceis.
Dito de outro modo: os tempos estão fáceis para os vendedores de soluções de faz de conta, capazes de jurar pela saúde dos filhos que seria fácil e seguro o caminho que nos propõem. Em geral, as soluções fáceis só têm uma coisa boa: a probabilidade de serem tentadas é baixa, muito baixa.
Neste cenário, a porta é estreita para quem não prescinda de pensar na margem que resta entre as várias responsabilidades que "a crise" impõe. Por cá, quem mais se sente apertado na estreiteza da porta é o PS. O secretário-geral dos socialistas declarou, sobre a proposta do governo para o OE 2012, "este não é o meu orçamento". Contudo, invocando a responsabilidade, levou o partido para a abstenção nas votações globais. Agora que essa orientação se vai consumar, depois de alguma aparente tergiversação, vai ser preciso colocar a questão: o país percebeu que este não é o OE de António José Seguro e do PS? O país percebeu o que queria o PS fazer de diferente - e que a diferença não estava nos remendos, mas na linha geral? Ou o país ficou convencido que, tirando os pormenores, o PS está amarrado à mesma linha geral que o PSD e o CDS?
Não tenho respostas para isto, mas os socialistas têm de as procurar. Se o PS tem consciência da gravidade do que aí vem, tem de ter muito clara a visão sobre o seu papel no país. A actual direcção do PS é uma espécie de grande coligação informal de todas as reivindicadas "esquerdas" desse partido, a começar pelo "alegrismo" (que, durante a predominância do "socratismo", queria muito uma orientação menos "centrista" e uma condução com maior dose de rupturas), mas sem deixar de fora o "soarismo" (ou "soarismos" vários). Estava à espera que esse "povo de esquerda" de dentro do PS produzisse uma leitura própria, consistente e reconhecível, da actual situação e do que fazer com ela. Continuo à espera. Mas isto sou eu que sou um tipo paciente: não sei se o país está disponível para continuar à espera. Temo que seja desejável não abusar excessivamente da volatilidade do capital de expectativa.


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