22/09/11

as vidas e as fortunas.



Passei hoje de manhã por um cartaz do BE com os seguintes dizeres: "As nossas vidas valem mais que as fortunas deles".
Acho que esta mensagem merece uma análise do ponto de vista da relação entre moral e política.
Num plano moral, eu diria simplesmente: "as vidas valem mais que as fortunas". Moralmente, eu não admitiria que a prevalência da vida sobre a fortuna dependesse de estarmos a falar de "nós" ou de "eles". As vidas deles também valem mais que as nossas parcas poupanças, ou não? Qualquer que seja a resposta a esse tipo de questões, entendo que estas são questões morais, que devem aparecer como anteriores às questões políticas que dizem respeito ao "como é que em comunidade lidamos com isso".
A outra parte daquela mensagem de cartaz é uma mensagem estritamente política, na medida em que implica a identificação de um conflito dentro da comunidade (entre "nós" e "eles") e estabelece uma preferência ("nós" somos preferíveis a "eles"). Apesar da identificação dos conflitos de interesses não esgotar o interesse da política, entendo que essa identificação, e a exploração desse conflito, é uma parte legítima da política. "As nossas vidas valem mais que as fortunas deles" é uma forma de lembrar a luta de classes, quer dizer, lembrar que há grupos estruturalmente diferentes na sociedade, que são colocados em posições diferentes de que não se podem libertar por mero exercício de vontade, por ser pesada "a força das coisas". E é também uma forma de apelar à acção dentro dessa lógica de luta de classes. Concorde-se ou não, a abordagem é legítima, o apelo é legítimo. Mas...
...a formulação "As nossas vidas valem mais que as fortunas deles" instrumentaliza um pressuposto moral às mãos de um apelo político. O que outros (certas organizações religiosas, por exemplo, precisamente em torno da "vida") também fazem, com justo desagrado da esquerda. Daí que eu preferisse não ver a esquerda a misturar estes dois planos. Estamos em tempo de tentar encontrar soluções políticas ("como fazemos para sair disto"), em lugar de aproveitar para explorar um qualquer moralismo de conveniência.

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