14/07/11

ainda a campanha interna do PS


Por boas razões, o que se passa dentro de um partido por ocasião da escolha de um novo líder interessa à generalidade dos que se interessam pela democracia. Por isso me interesso pela actual eleição para secretário-geral do PS, ainda mais sendo esse o partido com que me identifico na cena política nacional. É uma disputa na qual não apoio - nem deixo de apoiar - qualquer dos candidatos em presença, apenas por entender que é uma eleição onde nem todas as cartas foram colocadas em cima da mesa. De qualquer modo, há agora um "pequeno tema" sobre o qual entendo pronunciar-me, por me parecer relevante para lá dos muros deste ou daquele partido, a saber: os debates entre Seguro e Assis devem ser públicos (como quer Francisco) ou reservados aos militantes (como quer António José)?
As verdadeiras razões de cada um serão, suponho, tácticas. Assis quererá debates públicos para aumentar a repercussão das suas palavras, atrasado como está no contacto com as bases, que nunca foi muito a sua chávena de chá. Seguro preferirá jogar em casa, para não dar palco a Assis (um argumento que já foi usado outras vezes por políticos de outros quadrantes com altas responsabilidades), mas também para poder ter o discurso específico que os militantes querem ouvir para se sentirem afagados, discurso esse que poderia não ser o mais conveniente para debates televisionados, por exemplo.
Sobre as razões tácticas não me pronuncio: quer porque nunca fui bom nesse campo, quer por serem opções legítimas mas de mera oportunidade (sem alcance político geral, desde que a táctica não abocanhe tudo o que importa mais). Pronuncio-me, contudo, sobre as justificações públicas apresentadas.
Acho que Assis tem razão quando quer debates abertos. Como mostrou a campanha Sócrates/Alegre há uns anos, é uma oportunidade para mostrar ao público o vigor das ideias que fervilham dentro do partido. Ou, pelo menos, para ensaiar argumentos para o subsequente debate com outras forças políticas. Não há que recear que a "lavagem de roupa suja" ponha uns pingos na imagem imaculada do partidos: os partidos não têm imagens imaculadas, e aquilo que o "povo" em geral imagina que se passa "lá dentro" é muito pior do que realmente pode ser visto nestas circunstâncias eleitorais.
Acho, por outro lado, que Seguro tem razão em querer debates fechados. Os partidos são organizações, grupos humanos com interioridade, com espaço próprio, com solidariedades acrescidas ligadas a propósitos comuns, com reserva que confere liberdade, arenas onde se deve poder pensar alto sem entrar no circo mediático. Na minha concepção de um partido democrático, esse espaço de acrescida liberdade interna é uma necessidade. Se não for assim, os militantes só podem falar livremente com o parceiro do lado: quer dizer, só há debate sem constrangimento na secção local, porque fora desse espaço tudo é escutado pelo público em geral, pelos outros partidos. É como obrigar o treinador de uma equipa a dar a táctica para o jogo ao microfone, para que todo o estádio ouça. No fundo, isso equivale à lógica do "centralismo democrático", que é afinal uma lógica totalitária, porque os militantes só são livres de expressar a sua opinião na "primeira instância": daí para a frente, têm de ter cuidado com o que dizem para "não prejudicar o partido". E não me venham com a história da transparência: se um candidato a líder quer debater a estratégia da sua relação com os outros partidos, deverá fazê-lo na praça pública, mostrando as cartas todas aos outros partidos? Não me parece. Esta é, precisamente, a razão porque sempre achei errado que os congressos do PS tenham, há muitos anos, passado a ser completamente abertos à comunicação social: tornaram-se, assim, meros comícios.
Se concordo com Assis e concordo com Seguro, acho que deveria haver debates dos dois tipos. E há. Mas um único debate aberto ao público é pouco: é perder uma oportunidade de mostrar o pensamento dos socialistas ao país.

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