16.6.11

reflexões pouco apaixonadas entre ciclos políticos


Chamo "estar na política" a qualquer forma de intervenção pública que vise contribuir para que o país se oriente num determinado sentido (ou vise, pelo menos, que o país não vá por determinados caminhos). Pode estar-se na política militando num partido, escrevendo para ser lido, participando em alguma forma de fazer ouvir certas opiniões. Nesse sentido, "estou na política".
De entre as várias formas de "estar na política" prefiro as que são escrutináveis. Um militante partidário assume uma história, com as respectivas responsabilidades: não pode vir dizer "deviam fazer isto ou aquilo" com ligeireza, porque lhe podem perguntar "qual a razão para o teu partido não ter feito antes isso que agora apregoas". Um tipo que escreve regularmente num blogue é escrutinável pelo histórico dos seus escritos: em termos de coerência, por exemplo. É essa sujeição ao escrutínio que, a meu ver, falta nas formas mais inorgânicas de "independência". Quem nunca se compromete com nada, pode sempre criticar tudo, mas pelas más razões: a sua tarefa é puramente destrutiva. É o modelo da inutilidade prática. Pode dizer mal de tudo, sem rumo e sem linha - mas nunca produzirá, enquanto assim for, o compromisso com os outros que é sustento necessário à vida em comum.
Para os comprometidos, há basicamente duas formas de estar na política. Podemos julgar que "os nossos" são a única peça que é necessária à máquina para funcionar. Ou podemos acreditar que nós representamos uma parte das boas razões, crendo ao mesmo tempo que os nossos adversários representam outra parte das boas razões - e, ainda, que sempre se misturam algumas más razões às boas razões. Para quem, como eu, vai mais pela segunda via (diferentes forças e programas políticos são necessários à capacidade da comunidade para explorar diferentes caminhos e possibilidades), impõe-se uma expectativa positiva para o próximo governo.
Credo, o homem vendeu-se à direita!
Nada disso. Simplesmente, embora receoso das receitas ditadas pela ideologia dos novos governantes que aí vêm, espero que eles sejam capazes de pensar bem no que devem fazer, sejam determinados sem intolerância, não sejam tão ideológicos que esqueçam a força da realidade, sejam ponderados a decidir e competentes a executar o que decidiram. Quer isto dizer que espero não haver motivos para oposição? De modo nenhum. Quer, apenas, dizer que a relação entre governo e oposição pode ser uma relação de qualidade, mesmo no meio das maiores divergências programáticas. E Portugal precisa disso. Sempre precisou, mas agora precisa mais do que nunca nos últimos anos.