28/04/11

caro conselheiro benévolo dos socialistas portugueses


No Ladrões de Bicicletas, um blogue com cuja leitura aprendo muito, João Rodrigues chama a atenção para a entrevista que o presidente do Partido Socialista Europeu, Poul Rasmussen, deu à Lusa.
João Rodrigues faz jus ao paternalismo serôdio que uma certa esquerda usa para com o PS - nos dias em que, tão esquerda que essa esquerda é, não está a votar de braço dado com a direita. Esse paternalismo explica o título Ainda há social-democratas no PS?, bem como o conselho: "os socialista portugueses devem prestar atenção" à dita entrevista.

Claro que os socialistas portugueses dão atenção à dita entrevista. Mas também dão atenção a outras coisas. Por exemplo, os socialistas portugueses sabem que Poul Rasmussen, enquanto primeiro-ministro da Dinamarca, lançou a chamada flexi-segurança no mercado de trabalho: mais flexibilidade, quando necessária ao melhor desempenho económico das empresas (não é liberdade para despedir quando o "patrão acorda mal disposto", mas sim poder variar certos ritmos de trabalho para responder às variações das encomendas, por exemplo) combinada com mais segurança para os trabalhadores (menor precariedade no emprego). Quer dizer, uma solução em que todos ganham algo: os trabalhadores acompanham melhor a dinâmica produtiva das empresas, o que implica certos sacrifícios, mas isso, além de reverter para a saúde da economia, reverte também para a protecção dos seus postos de trabalho. Ora, quando os tais malandros dos socialistas portugueses quiseram discutir isso em Portugal, a esquerda da esquerda levantou-se em polvorosa gritando que era mais uma manigância contra os direitos dos trabalhadores.
Portanto, caro conselheiro benévolo dos socialistas portugueses, os socialistas portugueses sabem quem é Poul Rasmussen. A esquerda da esquerda, mais o sector irresponsável do sindicalismo, é que deveriam ser os destinatários desse conselho de "ouvir Rasmussen". Pela muito simples razão de que louvar agora Poul Rasmussen é fraco consolo para a cegueira com que no passado se mataram as possibilidades de uma nova maneira de regulação do mercado de trabalho em Portugal. E também por aí passou a crise deste país e da esquerda que temos.

Isto não impede que seja importante ler o que Rasmussen diz nessa entrevista. Pai da flexi-segurança diz que Troika vai demolir protecção dos trabalhadores portugueses. E diz mais: "o antigo primeiro-ministro dinamarquês afirmou que cabe agora a Portugal lutar para conseguir os melhores resultados das negociações". (Infelizmente, alguns dos que supostamente jogam pela "equipa Portugal" nem sequer vão às reuniões para mostrar os caminhos aceitáveis, o que, como método de luta, é questionável.)
É que, ainda por cima, o tema da flexi-segurança é muito apropriado para mostrar os prejuízos resultantes da combinação de conservadorismos de sinal contrário. É que importa, continuando a ouvir Rasmussen, assinalar também a parte de responsabilidade que tem a direita e o patronato na distorção desse caminho: Rasmussen disse que a flexi-segurança falhou porque os governos conservadores europeus manipularam o conceito para prejudicar os trabalhadores.

Parece-me, com franqueza, João Rodrigues, que esse conselho aos socialistas portugueses para ouvirem Rasmussen é uma história muito mal contada. E continuar a contar mal essas histórias faz parte da fraca novela que é o estado a que chegou a esquerda em Portugal.

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