08/04/11

alô, fala da esquerda da esquerda?


Jerónimo e Louçã vão reunir. Já expliquei antes que julgo tratar-se de uma boa notícia, a prazo, mesmo que seja uma dificuldade eleitoral para o PS neste momento. Mas acrescento que seria importante que desse encontro saísse algo de novo já para o actual momento político, de preparação para negociar a "ajuda externa". Acho que, actualmente, nem a esquerda nem a direita (ponham a fronteira onde quiserem) são capazes de dar respostas suficientes para todos os aspectos do problema. (Expliquei aqui o que penso disso.) A forma como Jorge Bateira coloca a questão é, mais uma vez, parcial - pela simples razão de que está a esquecer uma parte do problema.
O PCP e o BE têm estado entrincheirados na negação: eles não querem a ajuda externa, porque vai agravar disparates que têm estado a ser feitos por todo o lado. Pode alguém dizer que o PS também esteve em negação, mas é injusta essa crítica, na medida em que o governo foi fazendo e propondo aquilo que julgava estar ao alcance do país fazer para evitar a "ajuda", enquanto o PCP e o BE exigiam um mundo completamente diferente como condição das suas políticas. Ora, a política não é o exercício de declarar o que o mundo deveria ser idealmente; a política deve ser o exercício de responder ao mundo que existe, sabendo que não está nas mãos de ninguém mudar tudo radicalmente nem de um momento para o outro. Pois, eu também não queria a "ajuda" externa - mas ainda ninguém da ala negacionista se deu ao trabalho de explicar o que nos aconteceria se as coisas continuassem como estavam a correr nos últimos tempos, muito particularmente depois de a coligação negativa ter dado ao mundo o espectáculo da grande irresponsabilidade de uma crise política no pior momento. Repetir, apenas repetir até à náusea que a ajuda externa tem perigos, é inconsequente. É, aliás, uma forma casmurra de tentar fugir à questão "e agora, o que fazemos".
O que espero da esquerda da esquerda, da reunião de Jerónimo e Louçã, é que digam ao país qualquer coisa que vá além do negacionismo. Espero que coloquem em cima da mesa ideias concretas, realizáveis, acerca de como lidar o melhor possível com a negociação dos empréstimos; como fazer, concretamente, com que a distribuição das dificuldades seja mais justa socialmente; como mobilizar mais efectivamente as pessoas para melhorar a nossa capacidade de resposta, produzindo mais e melhor e não tratando apenas de tentar gozar dos esforços dos outros. O que espero da esquerda da esquerda é que dê caminhos de resposta a este desafio de Álvaro Cunhal, em discurso ao VII Congresso do PCP, Outubro de 1974:
«O atraso de Portugal é grande. A economia é deficitária. Mesmo que se eliminassem todos os lucros da grande burguesia e se procedesse a uma melhor distribuição da riqueza, o produto nacional não asseguraria, ao nível actual, a acumulação necessária para um desenvolvimento rápido e uma vida desafogada para todos os portugueses. Para o melhoramento das condições de vida gerais será necessário aumentar a produção em ritmo acelerado. E isso obrigará não só a investir como a trabalhar mais e melhor.»
Será que Jerónimo e Louçã são capazes de falar ao país de algo que tenha em conta esta necessidade? Seria interessante, pois é inadmissível que, neste momento difícil, uma fatia tão grande da representação política pareça estar posta de lado. Parece estar posta de lado, porque os partidos que se auto-denominam do "arco da governabilidade" parecem convencidos da inexorabilidade do seu exclusivo direito de acesso ao executivo. E parece posta de lado, por outro lado, porque os partidos que se julgam a verdadeira esquerda se dedicam a falar só dos aspectos da situação que lhes interessam. É fácil dizer "não pagamos" (vamos reestruturar a dívida) - mas seria preciso explicar aos cidadãos as consequências que daí adviriam. Ninguém imagina que seria possível lavar as mãos das nossas responsabilidades financeiras e continuar a obter o dinheiro sem o qual não vivemos, porque os credores não são bons samaritanos. E ninguém quis ainda convencer-nos de que podemos de repente passar a viver sem que nos emprestem. Esquecer essa parte do cenário é desonesto e não configura qualquer alternativa política.
É claro que ninguém em seu perfeito juízo julga poder combater um mundo económica e financeiramente globalizado só com as forças de um único país, pequeno como o nosso ainda por cima. Qualquer saída para esta situação só é viável no quadro da UE, onde as ideias "alternativas" são minoritárias e a consciência da gravidade da situação é fraca (todos pensam que o problema é dos outros). Isso coloca outro desafio à esquerda da esquerda: o PCP e o BE têm sido incapazes de produzir um pensamento coerente acerca da nossa pertença à UE. Clamam com voz grossa contra o BCE por não nos ajudar mais eficientemente, contra a Comissão por incapacidade de impulsionar políticas correctas - mas, no fundamental, são dominados por ideias nacionalistas (ou soberanistas, se preferirem). Querer sair de uma situação que só pode ser bem resolvida num quadro de cooperação internacional forte, e ao mesmo tempo estar contra o único quadro de cooperação internacional onde podemos obter algum apoio, a própria UE - é desprovido de qualquer razoabilidade.
Por todas estas razões, já que Jerónimo e Louçã vão reunir, queremos ouvir o que têm para dizer ao país. Acho que todos os partidos, em especial o PS, devem querer ouvir com atenção. Os mesmos jogos do costume agora estão fora de fase. Vamos ver quem compreende isso.

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