22/03/11

para que serve o próximo congresso do PS ?



Em democracia representativa, os partidos políticos servem para gerar respostas aos desafios que a comunidade enfrenta, para apresentar alternativas na base das quais o eleitorado pode escolher de um leque suficiente de opções diferentes. Todos os partidos têm de pensar a sua actuação à luz dessa sua responsabilidade e missão.
Vem isto a propósito de um congresso do PS que está aí à porta. Até há pouco tempo, um espectador desprevenido, como eu, pensaria que tal congresso não passaria de mais uma cerimónia para marcar calendário. Vistas as evoluções recentes, e as previsões meteorológicas, não pode ser assim. A presente situação nacional coloca a esse partido – e ao seu congresso – acrescidas responsabilidade. O congresso do PS tem de poder debater e escolher entre as principais opções que se abrem a esse partido quanto ao papel que pode jogar no actual momento e no futuro próximo.
Quem defende que o PS deve coligar-se com o PSD para salvar o país, deve apresentar-se ao congresso a defender isso. Os que acham que é tempo de o PS se entender com a esquerda da esquerda para mudar o rumo à governação, noutra atitude face "aos mercados" e face "a Bruxelas", devem apresentar-se ao congresso a explicar bem o que isso quer dizer. Os que entendem que o PS deve continuar contra tudo e contra todos, continuando a bater na tecla de um governo minoritário (o "PS sozinho"), têm de ir ao congresso levar a votos essa opção. Além disso, no caso de Sócrates chegar a demitir-se de PM, chegou o tempo de o PS discutir se quer continuar a tê-lo como líder ou não.
Em suma: o congresso do PS tem de decidir se quer beber o cálice deste ciclo até ao fim, com este rumo e este SG - ou se quer mudar de vida e entrar numa nova fase. Qualquer uma dessas opções é respeitável. O que não é respeitável é que um partido democrático não arranje maneira de discutir o seu futuro, em toda a liberdade.
Um grande partido nacional como o PS não pode, chegado a este ponto, gastar um congresso a discutir questões interessantes mas irrelevantes para o fulcro do que aí vem. Nem pode fazer uma eleição para secretário-geral em que os oponentes a Sócrates sejam apenas uns ilustres militantes que se apresentaram como candidatos a líderes apenas por truque regulamentar destinado a permitir-lhes apresentar uma moção de orientação política global (circunstância que já aqui critiquei anteriormente)... enquanto os "verdadeiros candidatos" se arrastam pelos corredores a conspirar baixinho. Isso seria, face ao país, pouco sério. E poderia ser, para o próprio PS, uma espécie de suicídio ritual (embora, em política, quase todos os suicídios sejam temporários).
Se é preciso mudar à última hora os regulamentos, mudem-nos. Não caiam é na loucura de apresentar ao país um congresso que pareça um jogo de sombras.

6 comentários:

Anónimo disse...

Calma. Sem prejuízo de se travarem todas as discussões pertinentes sobre coligações, oO PSD vai estatelar-se ao comprido. Basta desvendar o seu programa eleitoral.

Porfirio Silva disse...

Nada do que eu digo sobre o PS depende realmente do que faça o PSD. (Ah - e estou muito calmo.)

António P. disse...

Pois é, caro Porfírio, espero bem que os teus desejos se concretizem.
O pior que poderia acontecer ( para o PS e para os cidadãos ) era o congresso ser um jogo de sombras.
Mas há sombras que não saltam para a ribalta e os que lá estão, ao sentirem-se acossados, apelam ao reforço do grupo que se une em torno do leader. É uma pena mas é a vida...
A ver vamos.
Um abraço

Anónimo disse...

Leiam o post do João Távora sobre o congresso do CDS. Os tiques das lideranças parecem não depender das ideologias, presumindo que tal coisa ainda existe.
(nota: a sua agressividade é contra os anónimos em geral ou apenas contra alguns, Porfírio? O anónimo das 11:35, não teve direito a ser chamado "Anónimo das 11:35")

Porfirio Silva disse...

Parece que há anónimos que gostariam de ser tratados como personagens... Falta a esses anónimos, para tal reivindicação, alguma profundidade. Eu ando aqui há anos, podem ler o que eu escrevo, criticar-me pela "linha", procurar incoerências, argumentar contra mim com os meus argumentos se tiverem espaço para isso, tudo isso que uma pessoa de carne e osso tem - e uma personagem coerente também tem. Agora que um anónimo reivindique mais do que dá - aparecimentos "à la carte", mostrando ou escondendo o que bem lhe apetece - parece-me um bocado de descaramento a mais.

Miguel RM disse...

Caro Porfírio,
Aqui está um texto teu que mostra por que motivo vale a pena discutir política contigo. É preciso ser-se sério e dasassombrado para escrever o que aqui escreves quando no PS só se ouve o rufar dos tambores para a guerra de trincheiras que se aproxima. Sócrates é o principal culpado por o PS estar "domesticado e desesperado por salvar o que resta" (Pedro Lomba, no Público de hoje).