05/01/11

famílias


A família é um valor tradicional.
Algo que nunca nos sai do sangue.
Mas alguns preferem disfarçar.
Alguns, tentando disfarçar, só conseguem dizer que da sua boca não se ouvirá mais nenhuma palavra sobre esse assunto.
Parece que, para arguidos em processo-crime, o direito ao silêncio é uma garantia processual.
Mas uma candidatura presidencial ainda não é um processo judicial.
E um candidato presidencial, se fizesse minimamente jus à ética republicana, não confundia as suas respostas de candidato com o site institucional da Presidência da República.
A menos que essa seja a sua forma humilde de reconhecer que a sua actividade como presidente tem vindo a estar ao serviço de uma candidatura. A sua, precisamente.


LEGENDA: Da esquerda para a direita, na linha da frente: um senhor que não queria sair nem por nada do Conselho de Estado, até porque o presidente não via nisso inconveniente nenhum; um senhor que não via problema nenhum em que o senhor anterior aparecesse nas reuniões do Conselho de Estado para tomar chá, mesmo que não fosse exactamente às 5, na medida em que os seus modos à inglesa são apenas para tuga ver; um senhor tão manhoso que conseguiu fazer crer a um certo membro de outra família que ele era "porreiro, pá", embora agora ande de preferência pela trela da senhora Merkel; um senhor que escreve nos jornais - e nas rádios, e na televisão e no on-line e onde calhar, já que todas as famílias têm de ter quem escreva as suas crónicas e as crónicas convém que sejam boas; um senhor que anda por aí, segundo as suas próprias palavras; e, finalmente, um senhor que anda por aí, embora não o diga pelas suas próprias palavras, já que isso (não o dizer pelas suas próprias palavras) é condição sine qua non para que se entenda qualquer coisa. Na linha recuada, povo. Há ilustres comentadores, talvez da mesma família, que acham que se trata de membros de grupos para-criminosos conhecidos genericamente por "juventudes partidárias". Não me parece. É povo que segura bandeiras. Nestas famílias há muito povo, tanto povo que não deixam nada para os outros, de tal modo que as vitórias eleitorais dos outros são sempre especulações absurdas ou erros da realidade.

(ilustração surrupiada ao João Magalhães)

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