20/12/10

diz-me quem são os teus heróis, dir-te-ei quem és


Gente que, entre nós, se reclama de esquerda, anda nestes últimos dias embevecida com a apresentação ao mundo das obras telegráficas da embaixada americana em Lisboa. Que os "telegramas escolhidos" tenham sido dados à luz como fruto de um roubo gigantesco, não impede a popularidade do acto: há quem pense que um crime cometido com a ajuda da internet deixa de ser crime só por ser cyber. É o sex appeal do cyber. A moral agora é outra.
Neste novo panteão, se o herói global é Assange, o santo dos santos dos telegramas surrupiados, há vários beatos locais, que servem os altares de capelas mais pequenas. Quem conhece os santos e beatos de uma religião, fica só por aí com metade da sociologia dessa mouvance. Para os telegramas de Lisboa, o beato mais destacado é este novo herói da transparência e da verdade. Vale a pena conhecê-lo. Ajuda a perceber quem dá crédito a quem.

(via José Magalhães)

8 comentários:

Francisco disse...

O caso português para já não é um deles mas há casos sérios que justificam a publicação, como a manipulação da independência judicial na Alemanha e Espanha; a reincidência na atribuição de contratos a empresas que promovem a pedofilia e trafico de seres humanos nas zonas de guerra; como o fabrico e manutenção de armas proibidas.
E ainda foram publicados menos de 1% dos telegramas.

Porfirio Silva disse...

Concordo que há casos que poderiam ser novos Watergates. Mas o que se passa actualmente não é, visivelmente, guiado por esse alto critério.

T.Mike (Miguel Gomes Coelho) disse...

É o que dá quando se metem "patos bravos" na política, mesmo que sejam americanos...

Francisco disse...

Acha que não é guiado por esse critério porquê?
Veja este registo parcial de conversa online; Lamo é o jornalista da revista Wired que entregou Manning (com base nesta conversa); Manning é o suspeito de ter entregue a informação à Wikileaks (pois, não foi pirataria informática):

Lamo: what's your endgame plan, then?. . .

Manning: well, it was forwarded to [WikiLeaks] - and god knows what happens now - hopefully worldwide discussion, debates, and reforms - if not, than [sic] we're doomed - as a species - i will officially give up on the society we have if nothing happens - the reaction to the video gave me immense hope; CNN's iReport was overwhelmed; Twitter exploded - people who saw, knew there was something wrong . . . Washington Post sat on the video… David Finkel acquired a copy while embedded out here. . . . - i want people to see the truth… regardless of who they are… because without information, you cannot make informed decisions as a public. If i knew then, what i knew now - kind of thing, or maybe im just young, naive, and stupid . . . im hoping for the former - it cant be the latter - because if it is… were fucking screwed (as a society) - and i dont want to believe that we’re screwed.

Porfirio Silva disse...

Francisco, espero que não esteja a pensar transcrever para aqui nem 0,001% das centenas de milhares de páginas dadas à luz... De todo o modo, está a querer mostrar o quê? Está a querer justificar o interesse público da generalidade das informações publicadas? Ou está a querer provar as boas intenções de um suposto envolvido através das declarações do próprio? Se me explicar o que quer demonstrar, talvez eu tenha alguma coisa a dizer.

Francisco disse...

No fundo estava a querer destacar ambos. Justificar o interesse público das informações publicadas. E apontar as boas intenções de um suposto envolvido pelas declarações do próprio.

cpmts

Porfirio Silva disse...

A esmagadora maioria das informações divulgadas não têm qualquer interesse público, mas apenas o interesse de embaraçar diplomatas e tornar mais difícil o trabalho deles (inibir quem quer que seja de falar abertamente com um diplomata, pelo menos americano).
As intenções dos envolvidos, declaradas pelos próprios, valem o que valem. Os membros da ETA também só querem libertar o País Vasco do colonialismo espanhol, claro.
Com a condescendência com que estas actividades são vistas, por serem cyber, virá o tempo em que o assassínio pela internet se torna aceitável?

vial disse...

Sabe que é bem por aí mesmo!