22/11/10

o esquecido imbróglio dos 100 mil euros e da condição de recursos


No passado mês de Junho, a propósito da notícia «Apoios sociais vão acabar para famílias com mais de 100 mil euros em dinheiro e acções», publiquei aqui um comentário (os ricos que paguem a crise) que deixou horrorizados alguns editores de blogues com que frequentemente me sinto em sintonia. Por exemplo, o Tiago Tibúrcio ou o João Galamba. Acabei até por me sentir na obrigação de voltar ao assunto (os ricos que paguem a crise, again).
Um dos exemplos que eu dava, para ilustrar a minha discordância com aquela medida de "moralização", era assim apresentado: «Para que servem 100 mil euros? Por exemplo, para fazer face a situações aflitivas de saúde. Goste-se ou não, caro Tiago, vivemos num país em que, se não se tiver uns dinheiros de lado, pode-se morrer à espera do Serviço Nacional de Saúde. Se não está consciente disto, posso contar-lhe exemplos concretos do que isto quer dizer. Ora, pergunto eu, uma família que poupou 100 mil euros para não deixar morrer nem ficar inválido nenhum dos seus membros, por fragilidade do SNS, pode ser obrigada a esturrar esse pé de meia para subsistir numa situação de aflição - enquanto nós inchamos o peito e dizermos que o Estado deve poupar nesses casos?»

Ora, de novo a propósito do meu raciocínio, quero chamar a atenção de quem lê para a seguinte notícia: Relatório anual da Organização Mundial de Saúde: Todos os anos cem milhões ficam pobres por se tratarem. Lê-se no Público: «Portugal é referido pela OMS como um dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) em que parte da população enfrenta dificuldades financeiras para suportar os custos de saúde. “Ninguém deve ser forçado à ruína para se tratar”, indignou-se Margaret Chan, directora-geral da organização.»

Estão agora a ver qual era o meu ponto?

4 comentários:

Francisco Clamote disse...

Tudo ponderado, acho que tem razão, Porfírio.

Porfirio Silva disse...

Infelizmente, Francisco, infelizmente.

Tiago Tibúrcio disse...

Wow, calma aí! Desculpem, brinco. Vou tentar ver o que diz mesmo o estudo. Evidentemente, acho pertinente este dado que trazes aqui. Por enquanto, gostaria apenas de chamar a atenção para o que parece ser um detalhe mas inquina um pouco da discussão. Eu não incho o peito (nem a maioria das pessoas que defende o mesmo o faz) para justificar a grande maioria dos cortes realizados, sobretudo no que toca às prestações sociais. Estou é convencido da inevitabilidade de cortes nesta área, na medida em que traduz uma via quase imediata de poupança considerável e, nesta medida, parece-me razoável que se atinja em particular aqueles que, neste universo, têm mais rendimentos. Será sempre um juízo relativo ao universo em causa. Não os considero nem ricos nem, pelos rendimentos que possuem, desmerecedores da protecção estatal. Mas nisto concordaremos e o que nos distingue será a convicção da inevitabilidade de atingir estas prestações. Tentarei voltar a isto com mais tempo (mas menos caracteres, prometo). abraço

Porfirio Silva disse...

Tiago, não te esqueças da data em que ocorreu esta nossa discussão. E, quanto à expressão "encher o peito..." (que, além de ser uma das minhas expressões "folclóricas", é de um post da primeira vaga desta discussão), ela não afirma nenhuma maluqueira da parte dos interlocutores, mas afirma, isso sim, que o "rigorismo do controlo das prestações" arrisca-se a criar aborrecimentos.
Fico à espera das tuas verificações. Mas quem "anda por aí", como é o meu caso, conhece casos reais onde o problema em apreço se manifesta em todo o seu horror.