15/11/10

encontrar caminhos na relva por pisar


Miguel Vale de Almeida, com o post Transição permanente, no jugular, com uma reflexão que ajuda a perceber por que é que a vida em sociedades políticas sofisticadas não é facilmente redutível à guerra de trincheiras. Um texto longo, mas que vale a pena.
Deixamos um excerto.
Um exemplo actual. Tanto o PS como o BE propõem, para a próxima revisão constitucional, a eliminação de “raça” como uma das categorias segundo as quais ninguém pode ser privilegiado ou discriminado (artº 13º), e a sua substituição por “etnia”. A decisão radica no mal-estar sentido com a expressão em virtude da influência das ciências sociais que decretaram o carácter não científico da categoria. Não existem raças, em suma - elas foram criadas como categorias de exclusão e hierarquia. No entanto, uma outra afirmação das ciências sociais foi totalmente esquecida: a de que, no quotidiano, no senso comum, nas relações sociais e interpessoais, a categoria é operativa, é uma das usadas pelas pessoas para identificarem e se auto-identificarem – e portanto para percepcionarem as raízes das suas situações de exclusão. É por isso que muitos de nós nas ciências sociais grafamos raça entre aspas – para dizer que não é conceito cientificamente válido, mas é categoria efectivamente utilizada em muitos contextos sociais, vivida, para o bem e para o mal, pelas pessoas. A sua eliminação não constituirá uma forçada eliminação da legitimidade de alguém se queixar de ter sido discriminado em função da “raça”? Para mais, “etnia” não recobre o sentido de senso comum de “raça”. Um negro português não pertence a nenhuma “etnia” que não a genericamente designada como portuguesa, e a sua discriminação será muito provavelmente em função de aspectos do seu fenótipo. Só será discriminado etnicamente aquele negro que o seja em virtude de ser Balanta ou Wollof ou Quimbundo, algo muito improvável de acontecer em Portugal.
E, sobre este ponto em particular, relembramos um testemunho nosso: Política, Ciência, Linguagem (e Memórias).

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