04/11/10

as minhas implicações com a Máquina Analítica nem sequer são sérias


John Graham-Cumming vai finalmente construir no mundo real a Máquina Analítica de Charles Babbage, calculadora gigante a vapor, a qual nunca viu a luz do dia, fosse por insuficiência de financiamento, fosse por estar fora do alcance da tecnologia vitoriana. Apesar do pioneirismo da concepção.
John Graham-Cumming está a pedir dez mil contribuições de dez euros, ou dez libras, ou dez dólares para reunir o cabedal suficiente pare merecer a pena arregaçar as mangas e deitar as mãos ao trabalho, ele que quer completar a reconstituição a tempo do centésimo quinquagésimo aniversário do passamento de Babbage, isto é, até 18 de Outubro de 2021.
John Graham-Cumming não prossegue deste modo um sonho completamente original. A Máquina de Diferenças nº 2, inventada pelo mesmo Babbage, foi construída pelo Museu de Ciência de Londres em 1991 em comemoração do segundo século passado sobre o nascimento do engenhoso matemático.
Cada um comemora o que lhe fala.
O rabi de Portalegre quer reconstituir a Terra Prometida onde os seus chegaram depois de mais de quarenta anos a vaguear pelo deserto, paridos naquela forma de povo pela fuga do Egipto, pela chacina dos primogénitos, pelo deslumbramento das águas do mar que para eles se abriram e contra os perseguidores se abateram. O rabi de Portalegre não quer uma Terra Prometida em tamanho natural, como Moisés terá visto do cimo do Monte Nebo antes de morrer falhando o alvo, mas apenas uma reconstituição evocativa na fronteira incerta entre Portugal e Espanha, que é como quem diz entre nós e os outros, a única fronteira aliás reconhecida por povos muito ciosos de tanto estarem bem no que é muito seu como estarem magnificamente em terra emprestada, emprestada a bem ou não. O rabi de Portalegre não quer uma Terra Prometida como ela já foi, mas apenas como ela pode ser hoje, com ou sem arame farpado, atendendo ao facto bem conhecido de que não restam ao cimo da terra, esteja ela prometida ou por prometer, mais do que parques de diversão, feiras industriais, recintos desportivos, arrabaldes, tudo espaços pobres onde não corre o leite nem o mel, quando muito as águas negras dos nossos descontentamentos. O rabi de Portalegre sabe bem que os sonhos estão caros e, mesmo assim, pouco considerados, razão pela qual não está à procura de voluntários para contribuições. O rabi de Portalegre que estamos em maré de falar por falar, apenas e somente para não estarmos calados, por o silêncio doer como picadas de mosquito assanhado. Embora ele saiba de tudo isso, o rabi de Portalegre, que bem vedes que é uma figura de ficção, porque reconheceis que não subsiste nenhuma cidade de Portalegre, apesar de ser bem verdade que continua a exercer o rabi de Portalegre, embora ele saiba de tudo isso o rabi de Portalegre continua a arvorar o projecto de ter o seu modelo de Terra Prometida em miniatura para o dia de anos de Amós no primeiro ano da próxima década. Antes, portanto, de John Graham-Cumming querer concluir a Máquina Analítica de Babbage.
Cada um espera o que lhe fala.
Eu vou a casa, peço contribuições para uma cidade nova, sento-me à mesa dos pequenos-almoços, que são desejavelmente as refeições mais abundantes de alguém que já não precisa de grande alimento, traço uns riscos na madeira com um lápis grosso, começo a desenhar uma utopia qualquer e dou os meus dados por lançados. Hoje em dia, dia em que já não há utopias de espécie alguma, tenho a minha oportunidade: qualquer arqueólogo futuro que queira, num tempo distante, reconstituir qualquer projecto mirabolante, se já estiver concluída a Máquina Analítica e a Terra Prometida, terá de agarrar-se à minha pequena ideia. Nesse tempo, deste tempo só restará areia da nossa pobre cidade e qualquer grão é melhor do que nada para quem anda à procura.
John Graham-Cumming merece o nosso agradecimento. Ninguém nos tempos que corre quererá reconstruir uma cidade humana. Dado que ninguém, parece, quer viver numa cidade humana. Melhor é, assim, que alguém queira, pelo menos, construir a Máquina Analítica. Uma alma nova, com contribuições em rede. Fumar o fumo do ar. Fumar o fumo do tempo.

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