13/10/10

há por aí uma esquerda da esquerda que se ouça?


Vejo algo de bizarro quanto à ideia de que é "inevitável" que o PSD deixe passar o orçamento. Como expliquei anteriormente. Isso não mostra um bloqueio dos mecanismos constitucionais, mas sim um bloqueio da política. A politica não quis ver que não estávamos em tempo de "piloto automático" e que o piloto a sério não podia ficar à espera que limpassem a cabina. E, estranhamente, parece que ninguém se preocupa em perguntar à esquerda da esquerda em que condições poderia viabilizar o orçamento. Parece que o país já assumiu que o PSD pode eventualmente mostrar-se responsável e negociar a sério, mas que o BE e o PCP estão fora desse círculo. Se calhar, estão. Nesse caso não servem para nada, neste momento, como possível solução. O que é pena, já que neste momento não chega contestar.
Agora, a esquerda da esquerda não teria nada a ganhar em mostrar que poderia fazer parte da solução? Se fosse "melhorista" (ou reformista, se quiserem) não poderia, apesar das dificuldades, mostrar que pode fazer a diferença? Isso poderia ser alcançado concentrando-se em obter uma mais justa distribuição do esforço que a crise pede - dentro da estreita margem que a cena internacional nos deixa.
Consideremos as seguintes questões.
Neste texto: Os números oficiais mostram que o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) anunciado está mal repartido entre grupos sociais, João Ramos de Almeida lembra algumas coisas. A tributação do património é muito deficiente. Os assalariados e pensionistas já pagam 92 por cento de todo o IRS, deixando uma magra fatia para os independentes, agricultores, industriais, comerciantes, donos de prédios, de capitais e mais-valias. Mais de metade das empresas não paga IRC. O recurso aos sinais exteriores de riqueza para combater a fuga aos impostos continua praticamente inoperacional. Os métodos indiciários para corrigir a fuga estão na lei - mas só na tinta. Continua a haver benefícios fiscais que só são benefícios para grandes grupos. O tabu dos sigilos (bancário e fiscal) continua a servir os que deixam para nós a carga de pagar. E todas estas coisas têm histórias políticas onde muito poucos estão isentos de figuras tristes.
A esquerda da esquerda não poderia, sem fazer exigência megalómanas (que esquecem que não vivemos isolados do mundo), colocar em cima da mesa uma solução para este imbróglio político que não desse esta imagem triste de que o PSD é a única salvação possível para o país? Ou essa esquerda continua a não ser capaz de mais, no plano político, do que ser a voz do descontentamento imediato?

4 comentários:

Eduardo Miguel Pereira disse...

Esquerda da esquerda ?
Só para que eu entenda, a 1ª esquerda a que se refere neste termo é representada por que partido no nosso espectro político nacional ?
É que sinceramente não estou a entender o termo.

Porfirio Silva disse...

Eduardo, há anos que uso essa expressão aqui no blogue. Se vem aqui conversar, faça no mínimo a fineza de se habituar à linguagem da casa. Além do mais, se Vexa. faz parte do departamento que emite credenciais de ser de esquerda, não se mace: não reconheço esse departamento. Quanto mais não seja por essa "função" já ter causado muitas desgraças (e muitos mortos) por esse mundo fora. Pelo menos quando o pessoal desse "departamento" estava no poder...

Pedro Carvalho disse...

Pois é… o referido departamento denominava-se “espelho meu…” e funcionava por dois impulsos: a retórica do serviço aos trabalhadores e o cacete (muitas vezes a metralhadora ou a forca, entre outros meios “dissuasores”), para quem desconstruía o arraial de manipulação implícito na retórica. Ainda mantém o mesmo nome, mas parece ter mudado a pergunta que a todo o momento faz ao espelho, para: “espelho meu há alguém menos à esquerda do que eu?”. A resposta é óbvia: “não, senhor, esquerda só há uma, a tua e mais nenhuma”. Concordo consigo Porfírio as opções não devem esgotar-se no PSD. Talvez a esquerda da esquerda, para usar a sua expressão, possa, num arremedo de ousadia, partir o espelho, mas pelo que me apercebo não tem peito para responder à pergunta do momento: o que podemos fazer por este país.

Porfirio Silva disse...

Pedro, curioso esse nome para o tal "departamento"...