06/09/10

já não sei bem quem é Cavaco


"É fundamental falar verdade aos portugueses, porque falando verdade aos portugueses eles têm comportamentos que são consistentes com os objectivos que queremos alcançar", afirmou Cavaco Silva.

Costumo fazer críticas políticas ao comportamento de Cavaco. E também costumo fazer uma crítica de carácter: acho-o manhoso, hipócrita consciente (como resultado de uma escolha de estilo que visa certos objectivos políticos). Acho que nunca o achei tonto ou mal informado. Mas dou por mim, de repente, a hesitar.
Aquela afirmação acima, do ponto de vista das ciências da economia ou da sociedade, diz respeito ao que se pode chamar "o problema da agregação": como é que uma multiplicidade de comportamentos individuais desaguam num dado comportamento (ou resultado) colectivo. É um problema complexo, ao qual é no mínimo ingénuo dar a resposta "eu sei como se resolve". Cavaco comete essa ingenuidade: se encharcarmos de informação os indivíduos, eles vão pelos nossos objectivos. Mas "nossos", de quem? Temos todos os mesmos objectivos? Pensamos todos pela mesma cabeça (qual cabeça)? Basta estarmos "bem informados" para produzirmos um resultado harmonioso para todos apesar dos interesses diferentes? E como é que podemos "encharcar-nos" de informação? Na medida da complexidade destas questões, a afirmação de Cavaco é ignorância em estado puro. Para um antigo professor universitário em Economia, é grave.
Bom, podemos sempre voltar à hipótese original: não é impreparação, é pura manha e hipocrisia. O que será, digam-me lá, se fazem o favor.

6 comentários:

catinga disse...

E que tal... má vontade sua? É uma hipótese a considerar, não?

Porfirio Silva disse...

E má vontade por quê?
Não escondi as minhas antipatias, estamos claros. Depois, expus um problema e afirmei, preto no branco, que a personagem em causa mostrava não compreender o problema - ou fazer de conta que não o compreendia. A não ser que "catinga" ache que o primeiro magistrado não pode ser importunado com questões, não vejo onde está a má vontade. Em alternativa, "catinga" podia explicar, por exemplo, que coloquei mal o problema. Ou de outra forma entrar no debate. Assim, essa suposição de má vontade, com base em discordância política, não é uma hipótese a considerar. Nem sequer chega a ser uma hipótese, já que as hipóteses não são apenas palavras que se atiram a ver se colam.

catinga disse...

Não seja assim. Ninguém atira palavras a ver se "colam". Isso é tentar diminuir o "oponente" acusando-o de falar sem pensar. Você consegue melhor do que isso. A verdade é que você - que assume a antipatia para com o PR -, dificilmente poderá escapar à tentação de ver erros em tudo o que o homem faça ou diga. Já lhe passou pela cabeça que ele, enquanto professor, acredite mesmo que é possível motivar (aqui está uma palavra boa) a população? Chame-se-lhe inocência ou caráter de pedagogo (o homem foi professor). A ele pouco vale porque, estará sempre mal, certo? ;)

Porfirio Silva disse...

Repito: coloquei um problema, perguntei se Cavaco não o percebia ou se fazia de conta que não o percebia. Se o caro comentador não tem nada a dizer sobre o problema que eu coloquei, ou não lhe apetece, ou o acha desinteressante, está no seu direito. Coisa diferente é não dizer nada sobre o conteúdo do post e querer discutir psicologia, com dois pacientes: eu (porque supostamente posso ter má vontade) e o PR (porque quer motivar e eu não percebo). É que nem tudo no mundo depende de golpes de psicologia.

catinga disse...

E eu digo-lhe que pode haver uma terceira via, que não é a da "inocência" nem a do "calculismo" mas tão-só a da crença. O homem acha, acredita, que a população deve e pode ser motivada e di-lo. E eu, ao afirmá-lo, não faço mais do que responder à sua pergunta (é você que a faz, se é meramente retórica, então, eu devia ter olhado para o lado), consequentemente, pronuncio-me sobre a "conclusão" da sua entrada. Quanto ao resto, à parte da "cada cabeça, sua sentença", acho que é sempre possível, postas de parte as embirrâncias e as politiquices, chegar a ideias suficientemente conciliatórias. Isto, desde que se queira. Quando não se quer, aí, não há nada a fazer. O pobre do PR, se calhar, quer e acha que os outros também podem lá chegar... Que raio, a coisa só lá vai quando se trata de bola? Abraço.

Porfirio Silva disse...

Repito: o meu ponto não é de psicologia, nem sequer de psicologia social (apesar de isso até me interessar). O meu ponto era, disse eu logo no post, "o problema da agregação": como é que uma multiplicidade de comportamentos individuais desaguam num dado comportamento (ou resultado) colectivo. E, já agora, de saber se o PR percebia o problema, ou não, ou fazia de conta que. Nada do que "catinga" me diz é sobre isso. Converso que me irrita o facto de insistir em que está a falar do que eu falei, quando está sempre a andar à volta do assunto. Bem sei que há por aí muito boa gente com a convicção de que isto o que precisa é de "motivação". O próprio governo, muitas vezes, parece pensar que é desse tratamento psicológico que o país precisa. Eu não vou por aí: eu acredito que a política não é essencialmente "motivação", nem "comunicação", nem outras variantes da religião de massas; eu acredito que a política é acerca de percebermos como é que um colectivo se organiza de forma decente e eficiente. Nesta demanda, o "problema da agregação" é um problema central. Esse era o meu ponto. Não vou ser obrigado a virar-me para a psicologia, abandonando o que realmente estava a querer discutir, só por um simpático comentador querer escrutinar as minhas más vontades acerca de Cavaco.