15/07/10

a conversão do BE e do PCP às virtudes do capitalismo global


Oposição acusa Governo de favorecer JP Sá Couto no negócio do Magalhães.
E lê-se ainda no Público:
«O deputado do Bloco de Esquerda (BE) Pedro Filipe Soares acusou o Governo de ser “responsável pela criação de um clima de favorecimento à JP Sá Couto”, empresa a que foi responsável pelo fabrico dos computadores Magalhães, sem que tivesse havido um concurso público.»
«O deputado do PCP Bruno Dias afirmou que “o Governo preparou o caminho de sentido único para a adopção do computador Magalhães”. “É tempo de por um ponto final neste regabofe de negócios sem transparência”.»

Vamos supor que é verdade. Se for verdade, isso quer dizer que o governo estava realmente a fazer - finalmente! - aquilo que qualquer país com dois dedos de testa faz: encontrar caminhos, por entre os dedos da "globalização", para proteger as empresas nacionais, e respectivos trabalhadores a precisar de emprego, e para não entregar o dinheiro dos seus contribuintes, com todo o desvelo, a empresas estrangeiras. É o chamado proteccionismo encapotado, que tem de ser praticado enquanto for praticado, como realmente é, pelos outros países.
Quando, em negócios como o da Vivo-Telefónica-PT, alguns clamam que o governo devia, em vez de usar as acções douradas, ter encontrado outras maneiras de resolver o problema por antecipação, é desse tipo de coisas que estamos a falar: encontrar "esquemas" que respeitem o enquadramento legal anti-proteccionista mas não favoreçam a vida aos outros contra as nossas empresas e o nosso emprego. É por esse proteccionismo encapotado que a esquerda da esquerda está sempre a clamar, reclamando contra as maldades da globalização e clamando como somos mal tratados pelo selvagem capitalismo global.
É por isso que, neste caso, compreendemos a direita: se Passos Coelho vai a Espanha para apertar a mão aos compatriotas da Telefónica no meio de uma disputa por interesses estratégicos para Portugal, por que há-de o PSD preferir que os computadores sejam de uma empresa portuguesa em vez de serem de uma empresa espanhola? É coerente.
Já, no caso do PCP e do BE, estamos perante uma enorme desonestidade política. Agem contra os mais altos princípios de que se reclamam "na generalidade". Mas, "na especialidade", continuam a lutar com denodo para salvar a coligação negativa.

Alessandro Bavari, da série Sodoma e Gomorra

10 comentários:

Daniela Pamplona disse...

"Vamos supor que é verdade. Se for verdade, isso quer dizer que o governo estava realmente a fazer - finalmente! - aquilo que qualquer país com dois dedos de testa faz: encontrar caminhos, por entre os dedos da "globalização", para proteger as empresas nacionais"

Naaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh... O que eles fizeram foi proteger a empresa de amigos... O (vergonhoso) acordo com a Microsoft mostra bem que nao e uma questao de patriotismo!

Porfirio Silva disse...

Daniela, vamos falar com franqueza, em honra do tempo em que nos frequentamos na blogosfera.
Essa da "empresa dos amigos" é conversa da treta. Pior. É conversa de quem acha que tudo se pode dizer sem ter de provar nada. De quem acha que a calúnia gratuita é uma arma aceitável de combate político.
Neste caso, essa conversa serve para tentar desviar a questão política. Mas isso nem é muito surpreendente.
Desafio-te a substanciar essa afirmação da "empresa de amigos". Substanciar não é especular, nem colher palavras no vento. Mas aviso: não vou ser suave no escrutínio do que escrevas. Sabes por quê? Por que acho que essa forma de "debate", que recorre à calúnia sem dois segundos de ponderação, é um cancro da democracia. E, infelizmente, há muitos propagadores de cancro na nossa democracia.
Fico, pois, à espera.

MFerrer disse...

Porfírio,
Podes sentar-te que dali não virá nada a não ser o muito rancor ao PS.
Então essa de chamar vergonhoso a um negócio com a Microsoft, que reduziu a 10% o custo das aplicações do potentado, para uso dos professores e dos alunos, no mais aplaudido dos programas tecnológicos a nível mundial,apenas releva da imensa inveja e da cegueira política mais vulgar.
Também já escrevi isso mesmo: Nada se passaria se os computadores tivessem custado o dobro e fossem comprados em Taiwan ou em Espanha...
A miséria intelectual só pode ser denunciada e avaliada por uma população informada e escolarizada.
Será talvez por isso que tudo fazem para manter o nível tão baixo...

Porfirio Silva disse...

MFerrer,
Estou a dar o benefício da dúvida à Daniela. Até por a ela não lhe faltar escolarização! Mas, evidentemente, estou aqui muito calmo à espera dos "factos" que ela vai trazer.

Gonçalo disse...

Caros,

Danielas há muitas. As vistas curtas, a gratuitidade e a simples ignorância e má vontade. Isto não é propagação de "cancro na democracia", Porfírio. É, pura e simplesmente, uma demonstração das nossas fraquezas. Fraquezas como democratas, como cidadãos, como Homens (e Mulheres). Talvez isto da conectividade social só demonstra a nossa imaturidade, incoerência e imbecilidade (where appliable).
Lembro-me sempre do "melhor argumento contra a democracia..." do churchill.

Incomoda-me mais a existência desta angústia latente, deste desprezo natural pelos políticos (independentemente da orientação - mas naturalmente contrapoder), desde desdém pela incrivel complexidade do processo governativo, do que, propriamente, os comentários infelizes de uns quantos. Isto é... não tanto o teor dos comentários per se, mas o facto de que exista tanta gente capaz de - passo a expressão - arrotar a sua alarvidade (aqui, nos jornais online, em toda a parte) sem quaisquer considerações pelo que faz ou diz, sabendo de antemão que encontrará o apoio das hordas. O que é que os move? O que é que os fascina nesta permanente auto- (porque É auto)-flagelação? O que é que leva alguém a não acrescentar nada a uma conversa?

MFerrer disse...

Gonçalo,
Acho sinceramente que são os instintos de classe dominante.
O seu(deles!) anseio de que tudo fique como está!
Essa a explicação para terem elegido o Sócrates como inimigo principal, a abater por quaisquer meios e em matilha de esfaimados!
Primeiro era maricas, depois era ladrão, mentiroso e incompetente.
Já foi manipulador e atentava contra ao Estado de Direito. Lembram-se?
Foi entretanto desprezado por ter tirado um curso de que não gostaram, foi ministro do ambiente e foi bom.
Todas as acusações torpes e de mau-caractismo foram sendo produzidas com regularidade impressionante.
Só não se atrevem é a fazê-lo cair com uma moção parlamentar. Têm medo!
São uns merdas!

Porfirio Silva disse...

Gonçalo, a frase chave é a do "desdém pela incrível complexidade do processo governativo". É por causa disso que o populismo paga: defender que só existem coisas simples é conversa desejada por quem só compreende coisas simples. Como nesse ponto está a necessidades dos mecanismos representativos, é aí que é fácil atacar. E é aí que atacam. Quanto essa estratégia é aplicada por doutores em economia, podemos desconfiar que estão a fazer de propósito. Nesse ponto, o proletarismo do Jerónimo até pode ser um ponto a favor dele...

Daniela Pamplona disse...

Caro Porfirio,
Ainda nao tive tempo de ler o relatorio da comissao de inquerito, mas segundo o jornal i:
«foram feitas segundo as especificações transmitidas pela FCM aos operadores, onde se encaixava apenas um fabricante e um computador: a JP Sá Couto e o computador Magalhães».
Isto nao é patriotismo, é compadrio.

Em relação ao software da Microsoft no Magalhães é tão claro como a luz:
1) O software do Magalhães é tão básico que qualquer aluno de informatica o fazia com a mesma qualidade que a Microsoft (com um bocado de sorte, sem erros de ortografia)
2) Há umas quantas de empresas de software Portuguesas conceituadas Nacional e Internacionalmente
2.1) Dentro dessas empresas poder-se-ia ter escolhido uma de opensource com todos os beneficios tecnologicos e financeiros



Eu ate acho que o Magalhães foi uma ideia boa, mas poderíamos ter ido muito mais longe.

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Agora em relacao ao resto, ofende-me um pouco o tom das contra-respostas. Não, não penso que os políticos são todos iguais (nem uns malandros!), quero lá eu saber se o Socrates é gay ou não, e se tem uma lincenciatura ou não.
De 25 palavras minhas (provocadoras, eu sei), insinuaram imbecilidade, rancor, e vejam lá, que sou do P.S.D.! (ver segundo comentário do MFerrer). (Hihihi!)
Também não aceito muito o comentário "que vou ter antemao apoio das hordas", porque vejamos, eu vim comentar no blog do Porfirio Silva, portanto saberia que não teria apoio, e que a resposta seria franca e dura.

Resumindo, caros MFerrer e Goncalo, eu até posso concordar com voces (se há coisa que me irrita é a conversa de que os políticos são todos iguais e este país não anda porque temos políticos maus), mas por favor, da proxima vez, sejam mais educados e procurem ir um pouco mais além do que foram.

Um abraço para todos!

(eu imagino que este comentário vai dar panos para mangas e virão ainda mais dizer isto e aquilo. Mas não posso mesmo agora, pode ser que lá para a noitinha consiga fundamentar melhor as coisas e responder a todos pessoalmente e com mais dedicacao)

Porfirio Silva disse...

Daniela,

Quanto ao Magalhães, e ao programa a que ele está associado, nem vou perder tempo: os dados estão disponíveis, já foi dito o suficiente para achar pura arrogância essa pressa em dizer mal. Aliás, por muito bom que se faça cá, mesmo que seja do melhor a nível mundial, podia sempre fazer-se melhor - é o tom habitual dos críticos apressados. E parece que não foges a isso. Tenho pena.

Quanto à acusação que fizeste - era para "proteger a empresa de amigos" e não pelo interesse nacional - não dizes mais do que disseste antes. E escondes-te numa citação de uma frase de um jornal. É pouco. Demasiado pouco. Surpreende-te a violência da reacção!!! Fazes uma acusação dessas, sem nada para a substanciar - porque não há nada para a substanciar - e admiras-te com a reacção! Mas será que não tens a noção do que disseste?! Não és nenhuma tonta que ande por aí aos caídos, tens obrigação de saber o que dizes: e disseste uma acusação muito grave.
Tens aqui linha aberta, sem dúvida. Sempre te respondo com cordialidade (coisa que não faço a todos!), mas sem contemplações, que certamente não esperas de quem te respeite intelectualmente. Assim será também desta vez. E não tenhas pressa.

Gonçalo disse...

Daniela,

infelizmente, e não querendo abusar da hospitalidade do nosso anfitrião, sempre correcto e cordato, não retiro nem uma só palavra ao que disse. Lamento, de verdade, se a ofendi – não a presumi tão susceptível – mas queria apenas fazer uma alusão muito generalista.De qualquer modo, dedicar-lhe-ei 15 minutos da hora de almoço:

Já vi que sabe da poda. Que pode discorrer, de forma desapaixonada e factual, sobre o raio do computador, do programa e do diabo a sete. Portanto, ajude-me:

- Quantas empresas nacionais de fabrico / montagem de computadores conhece?
- Sabe o que é o Caixa Mágica e o Magic Desktop?
- Conhece alguma empresas que forneça e garanta apoio e assistência a programas OpenSource?

Uma vez que, aparentemente, eu não leio os mesmos jornais que a Daniela – que presumo excelentes, criteriosas e imparciais fontes de informação – sei apenas o seguinte:

- A J.P. Sá Couto (que fabrica, entre outros, os computadores Tsunami) é a única empresa portuguesa capaz de responder – e mesmo assim apenas razoavelmente – a um empreendimento desta escala e, mais ainda, a única certificada pela Intel (que fabrica o chipset e a CPU) para o fazer. Se são amigos do Sócrates não sei, nem me interessa. De certeza que não seria melhor se o dinheiro – mesmo que fosse menos – saísse todo para Taiwan ou para a China, ficando a parte de leão para intermediários, em luvas ranhosas e contrapartidas para amigos de outrem.

- O Caixa Mágica é uma plataforma Linux e o Magic Desktop é uma plataforma Windows. AMBOS estão presentes no Magalhães. Quanto à claridade “como a luz” não entendo o seu argumento... repare (se quiser) que os problemas do software – os erros ortográficos, etc. – existem apenas nos pequenos programas Open Source que complementam o computador. Este seu comentário, desculpe que lhe diga, deriva obviamente da ignorância e da desinformação, voluntária ou não.

- Batendo mais no ceguinho (a ignorância, bem entendido) podíamos alargar-nos um pouco sobre o open source e tal e coiso, mas fiquemo-nos por duas questões.

1 - Já usou Linux? Deus sabe o que custa à maior parte da FP utilizar o que já existe, quanto mais estar a migrar tudo de novo.

2 - A quem se pede responsabilidades por código aberto? A quem é que se pode, por exemplo, responsabilizar por erros, falhas, incompatibilidades, código malicioso, trojans e tudo o mais?

Portanto, para resumir, vá, o culpado é o Sócrates e/ou “eles”, essa entidade obscura e indefinida, que nada faz senão chupar-nos o sangue. Quer que eu ilustre? Procurando no Google “problemas com magalhães”, repare nas ultimas linhas do comentário deste cavalheiro:


“Boas, recentemente o meu irmão adquiriu o magalhães. Depois de ter instalada a net movel no portatil, tentei aceder à internet a partir o ie7 mas apenas consigo navegar na pagina apresentada ao inicio (e-escolinhas.gov.pt), tudo o resto diz que não e possivel apresenta a pagina. Procurei nas ferramentas, nos filtros de conteudos e nada.

Como e que eu resolvo este problema? O pessoal do governo só complica tudo xD Cumpz”

Ora então o marmelo compra um computador barato para miúdos dos 6-12 anos – com um filtro parental activo – tenta ir à net (ver as tais gajas) e não é que os sacanas do governo lhe estão a tramar a vida?

Fáite da power! Fuck da pólice!

É exactamente esta a minha perplexidade. O que é que leva alguém a misturar umas quantas fantasias, umas mistificações, uns pseudo-factos, umas mentirolas aceites como verdade absoluta, e a impô-los aos outros enquanto verdade iluminada?

A Daniela, desculpe que lhe diga, não sabe do que fala. Mas lança sobre os outros o seu desdém, como se ungida de uma autoridade moral que lhe permitisse aqui chegar, e desmontar qualquer discussão com um “é tudo uma cambada, e nós é que sabemos, e tal e coiso...”

Estava aborrecida e quis matar o tempo? Sentiu uma irreprimível vontade de comunicar com terceiros?

Ou não gostou de ver o nome do BE invocado em vão?

Cumprimentos, GM