27/05/10

Sweet Nothings, pelo londrino Young Vic


O texto original (Liebelei, de 1895) é um clássico do vienense Arthur Schnitzler (que também escreveu, na mesma atmosfera de Freud, o texto de onde Stanley Kubrick tirou o filme Eyes Wide Shut). A nova versão foi escrita por David Harrower. O encenador Luc Bondy levou-a à cena no londrino Young Vic, numa co-produção com o Wiener Festwochen (de que precisamente Bondy é director) e com o Ruhrfestspiele Recklinghausen.
Nós entramos no barco em Madrid, em mais uma estreia em Espanha devida ao Festival de Otoño en Primavera. Falamos de Sweet Nothings, uma história de amor e de temor, de adultério e complicações-ilusões.


A pergunta que me coloco é esta: como posso gostar de um espectáculo de teatro que, à primeira vista, é sobre a tolice de rapariguinhas pobretanas se meterem nos braços de ricos meninos? Vejamos.

O primeiro acto, que originalmente era para ser uma apresentação demasiado longa e fastidiosa da situação, torna-se nesta versão uma corrida moderna em/de cavalos nervosos, muito flirt, muita brincadeira, muito movimento, muito cheiro a sexo prometido embora não devido, um ambiente geral de sobreaquecimento. Esse é o conteúdo da bastante liberal festança que proporcionam o afinal ingénuo, embora atrevido, Fritz, e o seu cínico amigo Theo. O álcool e o desejo às vezes combinam bem como motor e, desta vez, esses ingredientes chegam perfeitamente para fazer rodopiar a romântica Christine e a sua mais calculista amiga Mitzi. Fritz e Christine emparceiram, mas não são suficientemente iluminados para perceber e assumir que carne é carne (e diverte) e espírito é espírito (e só complica as coisas). Theo e Mitzi também emparceiram, mas sem o peso dos projectos e de ideias elaboradas acerca dos pulinhos das hormonas: é agora, é já, é o que dá, depois acaba-se e vamos andando que a Terra não pára. A coisa complica-se com a entrada de um estranho, sombrio cavalheiro, que desafia Fritz para um duelo e começa a baralhar as coisas: o marido da mulher de vestido de veludo preto quer a desforra a tiro. Pistola nem sempre rima bem com sensualidade e a sombra cai sobre a festa e muda a cor do mundo (sim, aquilo é o mundo) e do segundo acto. Os ingénuos acabam sempre por ter pernas demasiado curtas para se aventurarem nas selvas caseiras – mesmo quando, ou especialmente se, afinal, até têm sentimentos.


O segundo acto começa, pois, sombrio, na casa dos subúrbios onde Christine vai enfrentar certas consequências das coisas que lhe vieram à rede sem serem peixe. Ele é a vizinha que encarna o puritanismo de subúrbio e lhe mostra em vão o caminho da redenção; ele é o pai viúvo, testemunha da falta da mãe; ele é a tia também recentemente falecida a aumentar o cinzento da meteorologia local. A vida nunca foi fácil para as costureirinhas que se metem nos lençóis dos filhos de família – e aqui não se abre excepção. O hedonismo do primeiro acto já vai muito longe: consegue-se aqui muito eficazmente esse aprofundamento do horizonte. Os que passaram da brincadeira à pretensão de que ela podia ser amor, Fritz e Christine, dão-se mal com isso. A situação, basicamente imaginada para a Viena da transição do século XIX para o século XX, parece um bocado esquemática para os nossos olhos do século XXI, quando andamos a ler nos jornais as notícias do homem chinês que foi condenado pela justiça do capitalismo vermelho por organizar uns divertimentos entre casais lá em casa. Mas, segundo alguns, uma das coisas que Schnitzler queria originalmente mostrar é que não é o sexo que traz complicações – mas o amor.


O que é incrível, para mim, é isto: como podemos embarcar numa historieta destas? Uma parte substancial da resposta é a interpretação, especialmente dos quatro jovens actores, um deles no seu primeiro papel profissional. Alcançam um nível de subtileza, no pequeno gesto, no furtivo olhar, na entoação, no silêncio ligeiramente deslocado do seu local natural para produzir um efeito completamente diferente, que realmente muda tudo. Começamos a pensar que não vamos poder acreditar em nada daquilo, acabamos a acreditar que aquilo ainda poderia afinal existir: se eles o fazem!

A outra parte substancial da resposta é a encenação, a cargo do suíço Luc Bondy: muito gráfica, entra-nos pelos sentidos dentro como uma certa BD à antiga ou uma certa linguagem de publicidade requintada. O colorido do prazer e o escuro das penas são visualmente plasmadas pela encenação no nosso sentir imediato. Das cores fortes da excitação em crescendo passa-se ao branco dos espaços de doença; do caos da festa passa-se ao espaço ordenado da hora de sofrer. Aprecio a transparência da encenação: nada de meter fumo entre nós e as personagens. Nada de impedir os actores de nos fazerem sentir implicados na embrulhada: o que eles fazem muito bem, como se simplesmente estivéssemos no zoológico a ver os animais naturais a viver. Apenas fechados na jaula da sala de teatro. Mas sem terem perdido nada do seu nervo selvagem. Fazendo-nos sentir que, se sairmos do nosso lugar de espectadores e dermos um passo em frente, vamos ser comidos. Ou, pelo menos, mastigados pela vida que eles estão a levar ali mesmo à nossa frente.

De facto, o teatro cria vida à nossa frente. A velha Viena à nossa frente no século XXI, afinal existe.

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