20/05/10

agora choram pela esquerda do PS




José Castro Caldas pergunta, sob o título Derrotados e conformados:
«Não compreendo a complacência da esquerda do PS com o PEC reforçado. (...) Não havia alternativa?»
Caro Amigo, vai por aqui, pode ser que lá chegues:
«Seguramente não irá a esquerda a lado nenhum enquanto os interlocutores do PS forem aqueles que vivem sonhando com o momento mítico em que ultrapassarão os socialistas cá dentro e em que haverá lá fora uma Europa neosoviética ou anticapitalista e alterglobalizada.»
Não vale a pena, agora, fazeres cara de muito surpreendido. Não andou a "esquerda da esquerda" este tempo todo a empurrar o PS para o PSD, à espera de que isso alargasse o seu campo de manobra e permitisse a punção final que permitiria reduzir o PS à irrelevância eleitoral? Fizeram tanta força para isso, que esperam levará o PS a um beco onde ele se torne um pequeno partido e, agora que a estratégia deu este resultado, estão muito espantados? Temos os partidos que temos, alguns fogem, outros comparecem.

5 comentários:

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Porfírio,
poucos desses a que chamas "a esquerda da esquerda" e entre os quais suponho me incluis terão escrito tantas vezes, preto no branco, para denunciar o sectarismo e o conservadorismo profundo dos que adoptam a linha política do "vale tudo" contanto que seja contra o capitalismo e o regime existentes. Tenho, nomeadamente, insistido em que o "anticapitalismo" deve ser subsidiário de uma vontade e de um projecto político democrático, pois que o reivindicar mais Estado, mais nacionalizações, melhores direcções económicas, etc., podem perfeitamente resultar em formas recicladas, e por vezes agravadas, da natureza oligárquica, inigualitária, essencialmente antidemocrática das instituições do capitalismo estabelecido.

Mas isso não me impede nem deveria impedir o Paulo Pedroso de pôr na primeira linha dos combates democráticos
1. o reconhecimento e denúncia do carácter político e governante, ainda que denegado pelos seus beneficiários, do poder económico, da actual forma oligárquica de direcção e funcionamento da "economia"; e
2. a ideia, e todas as suas consequências, de que a liberdade e a igualdade se implicam circularmente, que a igualdade é igualdade de poder, e que não há democratização do poder político sem democratização da actividade económica: democratização do mercado e igualização de rendimentos, "desmercantilização da força de trabalho", publicização participativa e democrática da esfera económica que supere os termos viciados de "mais Estado" ou "mais sector privado" e não reduza à defesa do reforço do "papel do Estado" a restituição ao espaço público democrático da "direcção da economia".

Parece-me por isso que aqueles que no PS e na sua área de influência sabem que a igualdade e a liberdade são condições uma da outra e que a sua afirmação política passa por uma democratização instituinte da economia não têm de temer fazer ouvir a sua voz, a pretexto de isso ser capitular perante o extremismo autoritário e fantasista de certa "esquerda da esquerda" - que o Zé Maria, eu próprio e muitos outros estamos tão longe de querer ver prevalecer como tu.

Na sua polémica com os bolcheviques - que reproduziam, em seu entender, sob a forma de inversão simétrica, as concepções e práticas da "reacção burguesa" -, Rosa insistia em que não se aprofundava ou realizava mais substantivamente a democracia começando por suprimir as liberdades públicas. Ora, o que te pergunto é se se pode fazer avançar a igualdade democrática, e repolitizar explicitamente nesse sentido a ordem económica, começando por reforçar as desigualdades, consagrar o poder político dissimulado que exercem, em detrimento dos direitos de cidadania e do seu exercício activo. Ou, por outras palavras, pergunto-te se a disciplina partidária e a defesa das posições adquiridas de um partido podem primar sobre as exigências da democracia e a defesa das suas condições.

Enfim, nota que, se levanto estas questões, é na firme convicção de que não sustentarás a tese - da qual as posições do Paulo Pedroso me parecem aproximar-se cada vez mais, mas ele que me corrija se me engano -de que os montantes de democracia devem ser definidos pelos limites requeridos pela consolidação da "autonomia sistémica" da economia, erigida em "lei da natureza das coisas", ou em não sei que princípio intangível e, por assim dizer, supra-constitucional.

Com um abraço

msp

Porfirio Silva disse...

Caro Miguel,

Certamente não estou sempre a pensar em ti quando critico certa esquerda; muito mais certamente não falo em nome de ninguém quando defendo isto ou aquilo.

Não sou advogado de ninguém, mas não acho que aqueles do PS que citas acreditem que a economia seja "a natureza das coisas", muito menos que tenham dúvidas acerca da necessidade de que o político não seja servo do económico. Digo isto pelo que vejo do que escrevem e pela sua prática política.

O esconjuro da "disciplina partidária" cheira-me a esturro. Mais precisamente, cheira-me a individualismo excessivo: parece difícil de compreender para algumas pessoas que pode haver solidariedades de grupo (por exemplo, partidárias) sem perda de liberdade e de autonomia. Em geral, o apelo aos malefícios da disciplina partidária é desse género. Quando se usa esse tópico para picar pessoas que manifestamente dizem o que pensam mesmo quando não concordam com o seu partido, parece-me deslocado.

O meu problema, Miguel, mesmo com alguns dos mais "puros" da esquerda da esquerda, é estarem sempre a criticar os terrestres em nome do céu. Não há revoluções ao pequeno-almoço - e a maior parte das vezes ainda bem. Há muita coisa que se tem de fazer e que está para cá do ideal. O problema é que os que defendem o ideal raramente têm alguma coisa interessante para fazer agora. Agora, entendes?

Eu também gosto muito da Rosa Luxemburgo. Acho é que ela era capaz de se rir bastante de andarem a citá-la por dá cá aquela palha...

Abraço.

Miguel Serras Pereira disse...

Porfírio,
sim, também eu não concebo acção política colectiva sem organização. E, de resto, ter-me-ei explicado menos bem: num partido deve haver maneiras de exprimir discordâncias, contestar a direcção, propor alternativas, que não sejam "indisciplina".
Mas, sobretudo, não te queria picar, pois sempre temos discutido abertamente e sem provocações.
O que não consigo identificar é na política conduzida por este Governo vestígios de preocupação democratizadora, de extensão das liberdades por via participativa, de combate sério às desigualdades, ou sequer de um mínimo de equidade na distribuição proporcional dos encargos a suportar na gestão da crise. E isto, para nos ficarmos pelo imediato.
Nas questões de fundo, a inércia regressiva do PS enquanto partido - e não transponho o mesmo juízo para todos os que militam na área socialista, senão é claro que não estaria aqui a discutir contigo nos termos em que o faço - parece-me insofismável, de há já largos anos para cá. Não vou falar em "alas", mas poderia dizer-te que até mesmo os que reconhecem a urgência de uma reinstituição democrática da Europa, da reabertura da "questão social" nas suas múltiplas dimensões, de novas políticas participativamente definidas e mobilizadoras, etc. - até mesmo esses parecem estar reduzidos a posições defensivas e à defesa de males menores cada vez maiores, como se não tirassem as consequências do facto de um partido democrático ter por tarefa principal a extensão da democracia e não a salvaguarda da sua natureza de "partido de governo" ao preço de engavetamentos tácticos que acabam por desfigurar a sua identidae política. E, last but not least, por reforçar as ameaças antidemocráticas ambientes dos mais diversos teores.
Ou continuas a achar que devaneio quando te digo que sou dos que pensam, como ainda hoje escrevi noutro lado, sem que se registe uma viragem democrática transformadora na área (de influência) socialista, as perspectivas que se anunciam para os tempos que aí vêm se tornam mais sombrias?

Abrç

miguel

Porfirio Silva disse...

Miguel, o balanço deste governo como governo de esquerda? É um exercício complicado neste momento, mas, se estivermos para isso um destes dias, estou certo de que, mesmo um tipo distraído como eu, será capaz de te fazer uma longa lista de coisas que te darão algum trabalho a descartar facilmente.
Os partidos, como meios de acção colectiva, estão uma tristeza, claro que estão. Como a generalidade das instituições. A corrente dominante, em todos os partidos, é para os transformar em máquinas de aparecer nos telejornais das 20. Isso é mau, mas tem muitos responsáveis.
Em grande medida, essa responsabilidade está, à esquerda, naqueles que, precisamente, abandalharam o conceito de responsabilidade. A esquerda "tradicional", com ou sem aspas, em modos muito diferentes, era exigente: queria que os "militantes" fizessem isto e aquilo, dessem o rabinho e mais oito tostões pelos "ideais", nalguns casos até dava uns açoites a quem não desse a sua contribuição. Agora, o que se vê por aí de "esquerda" no mapa institucional, é só facilidades e promessas. A esquerda que anda por aí já não precisa das pessoas para fazer nada, só quer as pessoas para protestar. Assim, o caldo só pode sair uma mixórdia. Como sai.

Miguel Serras Pereira disse...

Porfírio, eu podia assinar por baixo esta tua resposta - à excepção do primeiro parágrafo. Que governo tivemos nos últimos vinte ou mais anos que não tenha tomado esta ou aquela medida "social", a que com boa vontade poderás chamar de "esquerda", embora até tenha podido ser uma compensação ou manobra táctica visando fazer passar políticas de conjunto pouco "sociais", para já não falarmos em "socialistas"?

Mas o meu acordo contigo é bem mais substancial e amplo do que esta divergência. Dizes muito bem o que dizes, e seria difícil fazê-lo melhor. E com esta me vou- por agora.

Reabraço

msp