27/04/10

no teatro da escola

Tudo isto pode ser a propósito da importância da escola nas nossas vidas (ou de como, fracassando essa mesma escola, ela pode não ter importância nenhuma). Pode ser acerca de como na escola somos sujeitos a tantas influências diferentes, desde o mais estúpido mecanicismo à mais cuidada das confusões. Acerca de quão grave é ser professor. E aluno, e aluno. Acerca de como o mundo é complicado, de como as pessoas não são lineares, de como os heróis são novelas em fascículos e alguns dos capítulos vêm escritos em páginas erradas. Esta peça, que podia parecer coisa simples de ver e contar, talvez mesmo demasiado simples, acabou capaz de revelar algo importante: não há cores puras neste mundo. Só misturas.



The History Boys
(Los Chicos de Historia), de Alan Bennett, estreada em Londres em 2004, é a história de um grupo de estudantes de história a preparar-se intensamente para o exame de acesso a Oxford ou Cambridge, sob a batuta de três professores, Hector, Irwin e Lintott, com estilos bastante diferentes, orquestrados por um Director que, claro, quer que o seu estabelecimento suba no ranking.

Hector ama o saber e quer ensinar esse amor na sua pureza – mas lecciona “conhecimentos gerais” e ensina francês nas aulas de inglês. Lintott é limitada e não quer aborrecimentos, é boa pessoa mas nem sempre sabe bem como sê-lo. Irwin é contratado para ser um professor mais realista, mais focado nos resultados do que na educação (que nem sabe bem o que seja), apesar de os seus próprios resultados não terem sido tão bons como ele os afirma. Para Hector, que passa a vida a tentar contagiar os alunos com os vírus da língua, da literatura, do teatro, do cinema e da música, o Holocausto não pode ser reduzido ao objecto de um exercício de malabarismo verbal para surpreender o júri de um exame de história. Para Irwin, num exame a verdade histórica é tão irrelevante como a sede numa prova de vinhos. O medíocre director da escola gere o barco com um manuseamento hábil dos regulamentos, mas o barco é mais a sua carreira do que outra coisa.

Cabe lembrar que esta peça, que já deu um filme, localiza a acção em 1983, nos anos Thatcher, no norte industrial em dificuldades. O professor novo, focado nos resultados, é um cínico: mas isso ia bem com o liberalismo que reinava. A peça não se preocupa em desfazer preconceitos. Oxford e Cambridge é que são a meta, as outras universidades não contam, isso nunca é posto em causa, nunca se desmente que o raciocínio do director seja o raciocínio do autor do texto. Interessante é o questionamento (ou a simples exposição) das práticas sexuais pouco conformes ao regulamento que se desenvolvem entre o herói (o professor interessante) e os seus alunos. Talvez hoje poucos autores metessem esta vertente num espectáculo “para todos os públicos”.



No centro deste espectáculo, numa das salas dos Teatros del Canal, está o catalão José María Pou, actor muito premiado de teatro, de cinema e de televisão, encenador, director do Teatro Goya de Barcelona desde a sua inauguração em 2008, que começou com esta peça que lançou oito jovens actores. Ele próprio, o professor Hector, é realmente a única personagem com alguma densidade psicológica. Fica-lhe bem: um homem enorme a chorar, um físico um bocado desengonçado em parceria com alguns desencontros dos estereótipos que poderíamos esperar, acaba por funcionar. O resto é agitação, uma história em grande medida previsível, um fim de tarde de domingo em mais uma excursão ao teatro que se mostra em Espanha.

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